A vitória de Trump: Sobre bolhas do Facebook e intolerância justiceira

A mídia americana apoiou em peso Hillary Clinton. Há alguns anos esse apoio teria provavelmente definido as eleições. Com a internet e em especial o Facebook não é mais bem assim.

Me atenho a dois dos fatores que, penso, foram importantes para a vitória de Trump (existem outros, como o sentimento de exclusão dos eleitores do Trump, como analisou o Zizek, por exemplo): As bolhas do Facebook e os Justiceiros Sociais.

Escrevi há algum tempo um texto no qual dizia já no título que “revoluções não acontecem online”:

Nas redes sociais qualquer um pode reclamar de alguém ou de algo, pode reclamar de legislações, de problemas locais e ter uma resposta positiva por parte de outros usuários e mesmo de legisladores. Através de petições online e pressão online é efetivamente possível alterar projetos de leis, alterar rotas
de ônibus e sensibilizar multidões e, mesmo aqueles que, no fim, tomam as decisões, porém isto está longe de garantir o sucesso de uma revolta como a Primavera Árabe. Em outras palavras, redes sociais podem ser motor de
algumas mudanças, mas há limites para o tamanho das mudanças. Tomem o exemplo do Podemos, partido espanhol que usa ativamente as redes sociais até mesmo para votações internas: Não substituíram as reuniões presenciais de seus círculos, as manifestações com milhares de pessoas nas ruas
demonstrando força e, no fim das contas, nasceram fruto de mobilizações presenciais pelas ruas da Espanha.

Não importa o quanto você é engajado nas redes sociais, no Facebook ou em outras redes sociais, este engajamento é limitado tanto pela forma quanto pelas bolhas.

[…] a Internet é uma excelente ferramenta de publicidade, de mobilização, de união de pessoas e grupos, e é acima de tudo um espaço conversacional com a possibilidade de vir a se tornar o gérmen de mudanças caso a insatisfação
transborde suas fronteiras, mas, ainda assim, revoluções não acontecem online.

E quando falamos em bolhas, o potencial da internet enquanto “espaço conversacional” é ainda menor. Os algorítimos do Facebook nos fazem cada vez mais nos cercar apenas por aquilo que nos agrada, por discursos com os quais concordamos e cada vez menos somos expostos àquilo que nos desagrada, nos desafia ou mesmo nos faz pensar para além do lugar comum de sempre.

156 milhões de americanos têm contas no Facebook e, de acordo com pesquisas, pelo menos dois terços deles usam a rede social como fonte primária de notícias.

Essas notícias podem, volta e meia, vir de veículos mais tradicionais de mídia — incluindo os jornais que endossaram Hillary. Mas o que cada usuário vai ver dependerá de quem são seus amigos e do que eles compartilham.

Daí vem a noção de uma “bolha”: pessoas que estavam inclinadas a votar em Trump na eleição da última terça-feira apenas viram histórias que refletiam sua visão do mundo. E o mesmo se deu com aqueles que simpatizavam com Hillary.

Em outras palavras, não importa quanto você tenha postado maravilhas sobre Hillary, não importa o quanto você tenha “lacrado” o Trump, aquele seu familiar ou amigo inclinado a votar no Trump dificilmente chegou a ler suas postagens. As bolhas do Facebook tornam difícil ou quase impossível um diálogo entre pontos de vista diferentes — em especial quando são radicalmente opostos.

A isto juntamos um segundo fator, o dos justiceiros sociais ou Social Justice Warriors (SJW):

[…] os fanáticos que se comportam como seita em “movimentos identitários” dizendo defender causas sociais, mas que se limitam a buscar holofotes e a espalhar ódio — ao mesmo tempo em que prejudicar diversas causas ao afastar aliados e transformar a todos em inimigos

O grande problema desses grupos que são fortes nas universidades americanas (e cada vez mais no Brasil, infelizmente) é que, mesmo nos espaços onde ainda seria possível um diálogo com o lado oposto, estes se negam a dialogar.

Qualquer tentativa de diálogo encontra um muro de chavões e palavras de ordem vazias, como “lugar de fala”, “protagonismo”, “apropriação cultural” — são termos que historicamente tem validade, mas foram esvaziados ao ponto da neutralização de seu valor — ou o uso de termos como “branco” e “homem” (ou melhor, “omi”) como se fossem pejorativos. Ao invés do combate das razões pelas quais algumas categorias são consideradas “normais” ou a norma, a ideia é combater pessoas. Um branco racista não é problemático apenas por ser racista, o é por ser branco. O homem machista, da mesma forma, não é problema por ser machista apenas, mas por ser homem. É uma lógica da qual não se pode escapar, mesmo que alguns fundamentalistas da justiça social ainda concedam a possibilidade de “desconstrução” — sempre com limites insuperáveis.

Qualquer ideia contrária é tratada como uma ofensa, qualquer tentativa de diálogo encontra um muro de silêncio ou mesmo de ofensas e palavras de ordem completamente vazias.

“Cada vez que estigmatizamos, ridicularizamos, etiquetamos ou rotulamos eleitores de posição política diferente da nossa, contribuímos a esse fenômeno, que poderíamos chamar de ‘voto envergonhado’. Curiosamente, o ‘voto envergonhado’ acontece sempre do ‘nosso’ lado, o lado que consideramos ‘certo’, o lado ‘progressista’” (Idelber Avelar). Em outras palavras, é o que faz as pessoas declararem voto num candidato, mas votarem em outro, fazendo com que Os Simpsons tenham mais credibilidade do que institutos de pesquisa.

E, pra piorar, quando contrariados ou se fecham em seus safe spaces ou simplesmente fazem birra — que em alguns casos chegam a cometer crimes.

Uma mulher que disse ter sido xingada, ameaçada e tido seu hijab roubado por apoiadores do Trump admitiu ter mentido. O mesmo vale para o homem gay que disse ter sido espancado por apoiadores do Trump e postou foto sangrando. Era mentira. Quando o mundo não se submete aos desejos dos justiceiros eles fazem de tudo pra tentar vendeu seu peixe.

“And if my mansplaining is triggering you, you can either fuck off to you safe space or you can engage, and debate me, and tell me what I’m getting wrong because Trump just won the White House. Being offended doesn’t work anymore”

Se já temos por um lado as bolhas no Facebook que dificultam ou impedem um diálogo entre opostos, naqueles espaços onde poderia haver diálogo grupos de fanáticos preferem se fechar em “safe spaces” ou simplesmente atacar, xingar e denunciar qualquer ideia contrária no que podemos, sem medo, chamar de censura. A eleição americana, nas palavras de Noah Rothman, foi “balcanizada”:

Os eleitores de Trump têm certa razão. Eles afirmam que a correção política é um porrete utilizado pela esquerda para silenciar apenas os demograficamente indesejáveis (brancos, homens, população rural). Eles se irritam com os abnegados membros das forças da lei e das forças armadas sendo denegridos por pessoas influentes. Eles veem seu estilo de vida sufocado por regulações e suas comunidades transformadas por aqueles que não compartilham de sua cultura ou valores. Além disso tudo, é sempre dito a eles que essas preocupações e o sentimento de alienação a elas associado é fanatismo, pelo qual devem ser punidos.

Quando a esquerda/liberais se negam a dialogar, mas atacam a todos que pensam diferentes discursos como o de Trump tem caminho livre para ganhar espaço e adeptos. Quem irá contradizer — com argumentos — tais discursos quando só resta espaço para ridicularização e intolerância?

All those BS of safe spaces and the constant denial of debate… It’s the same thing in Brazil. The left just decide that any opinion they don’t agree is prejudice, is dumb… So there’s no debate, just censorship. This just creates a snow ball. Whe don’t make an effort to discuss with those who disagree with us, we just shut the down. So how we expect to win elections? Of course, the DNC is the main responsible for the whole fraud against Bernie, but since Hillary was chosen people spent more time.mocking Trump’s supporters rather than trying to reach them and convince them to vote differently.

“But they are all racists and mysoginists”. NO THEY ARE NOT! Some of them indeed are, but all of the fucking millions who voted for him? Are you mad?

Sure there’s a difference between hate speech and simply uninformed and dumb opinion, but to know which is which we must first fucking LISTEN. If you shut dow the door and run to your safe space how will you ever be able to discuss something? If you are always triggered how can you change peoples minds over anything?

The left just became a bunch of crying babies (and with some Stalinists and other crazy fuck people on the side). This Millennial generation should be called the “Oh, I’m offended generation”. And trump won.

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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