Bolsonarismo: Do Baixo Clero à catch-all da direita em vias de ruína

O Bolsonarismo serviu/serve como catch-all ideológico pra direita, dos liberais (na real conservadores) do MBL/Novo, passando por fundamentalistas religiosos, Olavetes, malucos terraplanistas, direita conservadora tradicional, gente pró-intervenção militar e outros casos psiquiátricos (até Integralistas).

Tudo isso num caldo indigesto de luta contra a corrupção com uma cambada de corruptos no meio, muita macheza fake e com um verdadeiro imbecil no comando. Gente que raramente se dá, com agendas muito diversas. Não surpreende que tudo já esteja se desintegrando — e rápido.

O Bolsonarismo é mais uma prática, não é uma ideologia em si, e não foi capaz de ter uniformidade em meio a tantas, digamos, tendências.

Fora isso, Bolsonaro e sua família são os mais típicos e legítimos representantes do Baixo Clero, ou seja, políticos virtualmente irrelevantes para qualquer discussão séria sobre o país, mas que sobrevivem de verbas de gabinete (dentre outras) e desviando aquilo que conseguem mendigar — em troca de apoio — para enviar para suas bases eleitorais — formando um curral eleitoral fiel.

Bolsonaro é um Severino Cavalcanti com ego inflado, que “deu certo”.

Cavalcanti se tornou presidente da Câmara dos Deputados para tentar mostrar que o Baixo Clero era mais do que uma camarilha de cleptocratas e corruptos, mas a espinha dorsal da política. Ele estava certo e errado ao mesmo tempo. O Baixo Clero é ao mesmo tempo a espinha dorsal, mas também uma espinha dorsal corrupta e podre, que sustenta e dilapida o Estado, ou que na verdade sustenta PARA dilapidar o Estado.

São basicamente o pior que a política pode oferecer. E, por serem virtualmente irrelevantes politicamente fora do período eleitoral, quando muitos puxam votos de seus currais, ou fora de períodos de votação de pautas importantes no Congresso, passam geralmente despercebidos pelo radar da maioria da população quando o tema é corrupção — e da justiça. São pequenos demais para alguém se importar, ainda que coletivamente sejam um enorme problema para o país, e também são poderosos por terem votos e currais eleitorais importantes para os políticos grandes.

Todos sabem que são corruptos, mas enquanto ficam na deles, vendendo seus votos e pouco conhecidos para muito além do seu curral — que não vai denunciá-los - sobrevivem e se alimentam de verbas públicas criando verdadeiras dinastias.

Bolsonaro é um destacado membro desse Baixo Clero que resolveu se tornar grande, relevante. Ele quis ser ouvido, pese não ter nada de útil para falar.

Sua pregação de ódio que sempre fez sucesso em seu nicho ganhou apoio na internet e nacionalizou-se. Mas nada foi mais fundamental para sua ascensão que o PT e o ódio que o partido e sua militância geraram (contra si) com sua insistente corrupção e descaramento (como a defesa intransigente de seus criminosos e de suas práticas) ao ponto do partido se tornar a própria esquerda (com conivência de boa parte da esquerda, aliás) e prejudicar todo o campo ideológico.

Notem, o PT não inventou a corrupção, tampouco é o único partido corrupto da atualidade, longe disso, no entanto sua pregação fanatizada de inocência de criminosos condenados e práticas reconhecidas de corrupção ajudaram a minar totalmente o partido — a crise que Dilma enfiou o país também não ajudou, claro. A ação de sua militância em redes sociais, de suas centrais de fake news e afins, também afundou o partido de vez na lama.

A situação de penúria do PT, junto ao esvaziamento da oposição tradicional (PSDB) e a falta de propostas reais para tirar o país da crise pelas vias institucionais tradicionais levou a um momento único em que Bolsonaro foi capaz de aglutinar diversas forças políticas, sociais e ideológicas diferentes em um pacote amorfo e perigoso.

Fico na dúvida se Bolsonaro foi o escolhido por diferentes alas da direita o acharem facilmente manipulável e fraco para resistir às suas pressões ou se na realidade boa parte da direita está simplesmente no nível do Bolsonaro e ele foi o melhor (sic) que conseguiram arrumar.

Dito isso, a corrupção em que Flavio Bolsonaro (supostamente, ok advogados?) se envolveu é coisa de principiante, de quem sempre foi Baixo Clero e nunca precisou se preocupar em esconder suas falcatruas porque nunca esteve nos holofotes. A única coisa pior que um político corrupto é um políticos corrupto e burro. Maluf levou décadas até ser pego, a famiglia Bolsonaro parece se esforçar para, em três semanas de governo, conseguir já estar atolada até o pescoço na lama da corrupção.

Por enquanto ainda sobrevivem se valendo dos velhos “Mas e o PT?” ou “O PT roubou mais”, mas até quando o discurso irá colar? A própria base do Bolsonarismo é fluida, diversa, difícil de lidar e precisa ser constantemente agradada e acariciada (um pouco como o próprio Baixo Clero), e o presidente já deu mostras de que não faz ideia do que está fazendo.