Sobre Lugar de Fala e o Texto do Leo Ganem no Meio & Mensagem
camila gadelha
756

Comecei lendo o texto já pensando: Lá vem mais uma SJW. Estava enganado e reconheço. Da mesma forma que você está cansada de ter que explicar coisas que (sim) são óbvias, muitos estão cansados também de ser patrulhados o tempo todo pelas alas mais radicais dos movimentos sociais.

Pra você ter uma ideia eu sou hétero, mas por anos militei no movimento LGBT, inclusive organizando beijaços e atividades, até um belo dia em que “militantes de facebook” me mandaram calar a boca em discussões porque eu seria um “outsider” que não entendia ou respeitava o movimento. Tudo isso, claro, com palavrões e desqualificação.

O clima é pesado, lados completamente radicalizados se recusam a dialogar ao mesmo tempo em que alienam aliados e os afastam.

Mas, enfim, lugar de fala nada mais é que uma perspectiva privilegiada, mas isso não significa que a opinião saída dessa perspectiva seja (a mais) válida. Apenas significa que temos de respeitar e ouvir — o que é o comportamento padrão de qualquer forma em qualquer diálogo.

Quanto à apropriação cultural, é algo — na antropologia — muito mais profundo do que a besteira de reclamarem de turbante (e quem reclama definitivamente não sabe do que está falando e está usando mal sua “perspectiva privilegiada”, vulgo lugar de fala). Apropriação cultural é uma empresa farmacêutica ou cosmética se apropriar de conhecimento indígena sem que isto renda algo aos indígenas e sem que eles permitam esse uso. Usar uma estampa de oncinha é só mau gosto.

Enfim, é óbvio que se uma mulher fala sobre questões ligadas ao mundo feminino o homem tem que respeitar e ouvir, e o mesmo vale pra negro(a)s, LGBTs e quaisquer outros grupos, mas isso NÃO significa que esta opinião ou perspectiva privilegiada esteja correta ou que seja hegemônica.

O problema é quando a turma justiceira social (que muitas vezes não é sequer dominante dentro do espectro que dizem representar) acredita que se alguém de uma minoria falar (sempre que de acordo com o que esse grupo acredita) então esta pessoa/grupo está certa e ponto, que o resto cale a boca — ou, em muitos casos, que nem esteja presente.

Lugar de fala muitas vezes vira lugar de exclusão de qualquer opinião que não seja majoritária dentro de um pequeno grupo.

Sobre o tema, compartilho: http://www.brasilpost.com.br/raphael-tsavkko-garcia/social-justice-warriors-d_b_12158396.html