Comentários sobre “Inteligência artificial pode trazer desemprego e fim da privacidade”

O artigo “Inteligência artificial pode trazer desemprego e fim da privacidade” é bem básico e introdutório, mas traz um debate interessante, importante e uma literatura que merece ser analisada.

Aliás, o trecho em que monstros da academia como o Benkler são citados é interessante, porque eu me vejo na situação de ter, um dia, apostado no potencial revolucionário da internet, cheguei a escrever sobre isso pra diversas mídias, mas aos poucos a realidade foi batendo na porta e me alinho mais, hoje, ao Morozov e à crítica do “paradigma sociotécnico” e me coloco hoje como um tecno-pragmático.

Daí também escrevi um artigo (capítulo em livro): “Revoluções não acontecem online: Redes sociais e tecno-pragmatismo

O potencial revolucionário da internet e da inteligência artificial é imenso, mas o USO que fazemos no caso do primeiro e do uso que farão e fazem (empresas, governos, etc) do segundo são preocupantes.

A substituição do trabalho braçal e até de uma parte considerável do trabalho dito intelectual por máquinas é ótimo, mas não num mundo em que pessoas são descartáveis, sem uma renda mínima, sem condições para (o mercado) absorver a mão de obra de outras formas ou mesmo com cada vez mais pressão por produtividade, menores salários e mais e mais trabalho. Parece um contrassenso. E de certa forma é.

O mesmo vale quando analisamos o ciborgue, o que vai além da mera substituição do homem/mulher pela máquina, mas a complementaridade e mesmo a intersecção. A Lidia Zuin tem um textaço sobre o tema, ainda que voltado mais pra área da sexualidade.

In both cases, the concept of cyborg goes further than its meaning of a “cybernetic organism.” It says more about the postmodern human condition than the man-machine relationship. Years after publishing her Manifesto, Haraway said she understood that people were already living as cyborgs — including herself. “Beneath the surface she says she has the same internal organs as everyone else (…). Yet Haraway has proclaimed herself a cyborg, a quintessential technological body,” writes Hari Kunzru for Wired, after an interview with Haraway in 1997.

A prática capitalista vai de encontro com a realidade imposta pela (re)evolução técnica. Momento, aliás, de retomar a leitura de autores como Flusser que, em O Mundo Codificado (dentre outros) nos dá uma visão exemplar do avanço da técnica. Para uma resenha do livro, clique no link.

Nossa realidade, segundo o autor, é uma construção ideológica e Flusser ainda aponta para, em meio à nossa completa imersão em meio aos símbolos e possibilidades, o perigo de nos perdermos, de nos iludirmos ao acreditar que somos totalmente livres e não vivemos em um “totalitarismo programado” (p. 64). Resta saber, ao fim, quem controla quem, os homens às máquinas ou o contrário.

Enfim, o texto da Folha, escrito pelo Pedro Abramovay traz uns bons insights.

“Os benefícios da inteligência artificial se fazem ver em várias áreas. O mesmo vale, contudo, para as ameaças sopradas pelo turbilhão tecnológico. Entre elas, segundo o autor, estão a autodeterminação das máquinas, o desemprego e o fim da privacidade. A falta de uma agência reguladora global acentua o temor. “
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Em suma, nunca foram tão poderosos os meios técnicos para melhorar a saúde humana, permitir que as pessoas levem adiante trabalhos interessantes, favorecer a cooperação social e ampliar a soberania dos indivíduos sobre suas vidas e suas decisões. Ao mesmo tempo, nunca foram tão avassaladoras as ameaças que emergem da concentração de riqueza e de poder ligada a esses meios técnicos.
É fundamental que se amplie a discussão pública (sobretudo a de natureza ética) sobre esses temas, pois é daí que virão políticas e iniciativas empresariais e cidadãs que poderão colocar a inteligência artificial a serviço do florescimento da espécie humana.