Como é viver sem internet?

Imagine passar mais de um ano sem poder acessar a internet. Sem poder enviar uma mensagem por WhatsApp, rir de um meme ou conversar com os amigos sobre futebol no Facebook.

Jul 13 · 5 min read

Essa é a realidade do Chade, país africano que desde março de 2018 encontra-se virtualmente offline.

O país já havia passado por outros períodos de blecaute. A internet foi suspensa no país ao menos duas vezes em 2018 durante ondas de protestos e em 2016 o país passou 8 meses com acesso bloqueado a redes sociais depois de eleições controversas.

Apenas 5% da população consegue acessar a internet. O governo acusa problemas técnicos pelo blecaute, mas pouco faz para resolver o problema — ativistas e organizações de direitos humanos, por outro lado, apontam para um plano do governo com o objetivo de prevenir a população do Chade de acessar informação e se organizar para protestar contra o presidente Idriss Déby, que busca se manter indefinidamente no poder.

No poder desde 1990, Déby busca se garantir no poder até 2033 através de mudanças constitucionais. As eleições legislativas no Chade têm sido postergadas desde 2015 e o país enfrenta uma crise econômica devido à queda no preço do petróleo, do qual o Chade depende largamente. Para controlar a crise, o governo impôs cortes severos nos gastos públicos, o que levou à protestos e greves — com a resposta do governo de cortar o acesso à internet em um país que já possui um baixo índice de acesso.

Os custos econômicos de tal bloqueio são astronômicos, mas os custos sociais — deixar um país inteiro virtualmente desconectado — são incalculáveis. Recentemente Tonga, pequeno arquipélago da Oceania, enfrentou situação semelhante. O cabo submarino que levava fibra ótica ao país foi acidentalmente cortado e o país mergulhou em um blecaute onde até mesmo telefonar para outro país se tornou tarefa quase impossível. As autoridades foram forçadas a recorrer à internet via satélite, com banda limitada, priorizando serviços essenciais.

Além do blecaute, mesmo aqueles que ainda conseguem algum acesso encontram sites como a BBC e aplicativos de mensagem como o Facebook Messenger e o WhatsApp bloqueados no país. A censura online imposta pelo governo do Chade, no entanto, não é uma exclusividade — outros governos promovem blecautes programados (em geral durante períodos eleitorais ou de protestos, como por exemplo aconteceu no Benin) -, mas o alcance que medidas para impedir o livre acesso à informação no país não tem precedentes na região.

Mesmo no Brasil o WhatsApp foi bloqueado por decisões judiciais, mas nunca sequer foi pensada a possibilidade de “desligar” a internet ou permitir o acesso apenas à uma pequena parcela da população. Em outros países da África, como o Zimbábue, táticas semelhantes de limitar acesso e censurar sites e aplicativos forma usadas, mas o Chade é o caso mais radical.

Durante os dias mais tensos da Primavera Árabe, no Egito, o governo também recorreu ao corte da internet. Governos autoritários parecem ter uma certa atração pelo bloqueio da internet sempre que são objeto de repúdio e protestos. Apenas este ano, o Gabão, Sudão, Zimbábue, Chade, Argélia e República Democrática do Congo recorreram a bloqueios como forma de impedir ou silenciar protestos contra o governo. No Sudão e na Argélia, porém, os bloqueios não impediram a queda de governos.

Na República Democrática do Congo, entre 31 de dezembro de 2018 e 20 de janeiro de 2019, o acesso à internet foi suspenso no país enquanto a população esperava pelo resultado das eleições — no começo de dezembro o país já havia elevado em 60% o custo do acesso à internet.

O presidente do país, Joseph Kabila, disse que o objetivo do bloqueio era de evitar conflitos após o anúncio dos resultados. Na realidade, a intenção de Kabila e outros líderes autoritários é, em geral, o de impedir que a população se organize e reivindique direitos. Cria-se, ainda, um círculo vicioso em que governos comumente em profunda crise econômica acabam bloqueando a internet como forma de evitar ou reduzir o alcance de protestos e da insatisfação popular, causando danos graves à economia pela suspensão de serviços e mesmo de pagamentos, aprofundando ainda mais a crise.

Em apenas 5 dias, Uganda acumulou perdas de mais de 2 milhões de dólares, em 2016, ao bloquear a internet. O Camarões acumulou um prejuízo de quase 1.4 milhão no ano anterior e na Etiópia, o prejuízo foi de 8 milhões por 30 dias de bloqueios em 2015 e 2016. Na Etiópia discute-se, ainda, uma lei com o objetivo de combater as chamadas fake News, impondo pesadas multas para quem propagar informações falsas. Ativistas apontam que a proposta pode servir para censurar a liberdade de expressão online e offline, criado formas alternativas de bloqueios à internet — impedindo que se expresse opiniões contrárias aos interesses do governo de ocasião.

Os custos políticos, no entanto, seriam reduzidos — é muito mais simples perseguir indivíduos por supostas notícias falsas do que bloquear toda a internet em um país -, assim como os econômicos. Os custos sociais, no entanto, seriam (e são) gigantescos.

No Brasil, o Marco Civil da Internet impede tais bloqueios generalizados e, em tese, deveria também impedir mesmo as decisões pontuais de bloqueio, por exemplo, do WhatsApp — o que não evitou que por mais de uma vez o serviço fosse suspenso com base em decisões de juízes de primeira instância. Não há, ainda, casos de tentativas de bloqueio por motivos políticos ou como forma de impedir ou reduzir os efeitos de manifestações — pelo contrário, o país de tempos em tempos é sacudido por grandes manifestações organizadas em grande parte pelas redes sociais e transmitidas ao vivo para todo o mundo.

No entanto, é sempre necessário estar alerta para que casos que tem se tornado cada vez mais comuns em países africanos (e em outras partes do mundo, como no Sri Lanka) não aconteçam também no Brasil.

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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