Cotas para a literatura, ou o feminismo como prêmio de consolação

Raphael Tsavkko Garcia
Jun 22 · 6 min read

Em recente artigo para o El País, Mário Vargas Llosa questiona a validade de se defender cotas paritárias em eventos acadêmicos, artísticos e literários como forma de se alcançar efetiva igualdade entre homens e mulheres diante da tão real e cotidiana violência de gênero que mulheres são submetidas.

O autor critica um manifesto divulgado durante a terceira Bienal e do Prêmio de Romance que leva o nome do autor, em Guadalajara (México), em 27 de maio de 2019, que além de conter informações inverídicas (reduzindo ainda mais a participação de mulheres no evento para amplificar os efeitos do próprio manifesto), também deixou de lado o fato de outras autoras terem sido convidadas e recusado (inclusive, diz Llosa, três das signatárias).

Como ele, também não acredito que a mera paridade em mesas de eventos seja parte do caminho para igualdade, e existem exemplos de que a paridade sequer é o objetivo, mas apenas uma desculpa para tentar substituir qualidade por cota e para que um lado saia vencedor em uma “batalha” imaginária.

Não se trata de defender um modelo (bastante em voga) de exclusão de mulheres, não se discute que existe um problema real em eventos que muitas vezes sequer convidam mulheres ou cuja presença é apenas testemunhal (pese, em algumas áreas, ser mera reprodução do ambiente e do entorno).

Com vimos na edição de 2017 da FLIP, para muitas o objetivo não é paridade, mas ganhar o jogo. Havia mais mulheres que homens, no entanto não se discutiu a qualidade dos convites, mas tão somente esta pequena vitória contra o patriarcado e o pagamento de uma dívida histórica.

Não tenho problemas com quem admite claramente que se trata de uma guerra em que um lado deve pagar supostas dívidas, o problema é tentar disfarçar o fato com discursos pela igualdade — ainda mais quando a paridade é alcançada quando um dos lados continua minoritário, mas o lado que, segundo alguns (ou algumas), deveria ser efetivamente minoritário.

Na época, a escritora Eliane Brum comentou que a inclusão de mulheres (e de negros) não seria uma concessão, mas “um espaço conquistado pela luta”. Fica a dúvida se esta “luta” tem por base qualidade literária ou só capacidade de vencer no grito.

Como lembrou Vargas Llosa, “[o] único critério aceitável nesse campo é o da qualidade, não o da quantidade. Nada seria tão ofensivo e discriminatório para as mulheres que serem convidadas para a conferência como figurantes ou números, para preencher uma quota aritmética que fingiria respeitar a equidade e faria dela uma caricatura, ou seja, a deixaria em pedacinhos.”

O texto do autor peruano me recorda o de Helen Pluckrose, acadêmica independente, editora do site Areo, e que foi uma das autoras do experimento que desmascarou diversas publicações acadêmicas de qualidade duvidosa ligadas aos estudos feministas e de gênero, teoria crítica, estudos pós-coloniais, etc, apelidados pelos autores de “grievances studies” (algo como “estudos de queixas reclamações”).

Pluckrose, junto ao professor de filosofia Peter Boghossian e o escritor James A. Lindsay, publicaram uma série de artigos claramente fantasiosos e mesmo ofensivos (um deles um texto baseado em escritos de Hitler em seu livro “Minha Luta” que foi publicado por uma revista acadêmica feminista ou outro sobre “cultura do estupro” em parques para cães) que foram aceitos como eminentemente acadêmicos por editores de revistas com certo grau de respeitabilidade em suas áreas. 4 artigos foram publicados e outros 3 foram aceitos, mas ainda não tinham sido publicados antes da farsa se tornar pública.

Pluckrose, como Vargas Llosa, é uma crítica do pânico moral criado em torno da necessidade de paridade total em eventos acadêmicos, artísticos e literários. Em artigo publicado em março de 2018, “É por isso que precisamos falar de diversidade”, a autora critica o fato de ter sido convidada a falar em um evento meramente por ser mulher.

O convite a ela não foi feito por seu conhecimento da área ou do tema (ainda que de fato ela fosse capaz de tratar do assunto, “diversidade”).

O grupo Freethinkers of PSU (Livres Pensadores da Portland State University) havia inicialmente convidado o filósofo Peter Bohossian e o controverso ex-empregado do Google, James Damore, para falar sobre o tema. Diante de pressões externas, já que no entendimento de algumas pessoas dois homens brancos não poderiam tratar do tema (especialmente um que já havia sido duramente atacado ao expor suas ideias que, mesmo que fossem equivocadas, eram merecedoras de debate), o Freethinkers of PSU se viu forçado a buscar convidadas do sexo feminino.

Cinco professoras da Faculdade de Estudos Femininos da universidade foram convidadas a participar do debate, nenhuma delas aceitou, forçando a organização a buscar debatedoras externas — mas não uma, duas, lembrem-se: “paridade”.

Uma delas, Helen Pluckrose, disse ter se sentido “encantada por me oferecerem esta oportunidade, mesmo que não pudesse ignorar totalmente que a minha inclusão era, pelo menos em parte, uma exigência humilhante e simbólica de “diversidade” por parte da universidade.”

Por mais que fosse capaz de tratar do tema, Pluckrose foi convidada apenas por ser mulher sob a exigência de cumprir uma cota de diversidade.

Vargas Llosa analisa sem meias palavras as possíveis consequências dessa tentativa de impor paridade acima de qualidade ou possibilidades: “O feminismo corre o perigo de se perverter se adotar uma linha fanática e intransigente da qual existem, infelizmente, muitas manifestações recentes, como a de querer rever a tradição cultural e literária, corrigindo-a de maneira que se adapte ao novo cânone, ou seja, censurando-a. E substituindo o desejo de justiça pelo ressentimento e a frustração.”

Infelizmente o feminismo não corre apenas perigo, como já encontra-se em uma espiral de radicalismo como disse a psicanalista e professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires, Alexandra Kohan, ao site Panamá Revista: “Mas sim, um certo setor [do feminismo] peca pelo egoísmo, pelo voluntarismo, pelo individualismo, coisas que pegam muito mais nos jovens. […] As relações não são fáceis. Transar não é fácil em qualquer idade. Não se trata de acumular experiência. E estes são discursos tranquilizadores. Então, vamos dar aos jovens uma chance de se acalmarem, mas isso coloca remendos nos buracos que vão permanecer abertos para a vida. O que me parece perigoso é quando isso leva ao punitivismo, escraches, e construir um mau o tempo todo.”

Vargas Llosa comenta sobre a desigualdade que existe entre homens e mulheres, afirmando que “essa não é uma batalha das mulheres contra os homens, mas de todos os homens e mulheres conscientes e responsáveis,” ao passo que Kohan explica que “o feminismo tem que incluir os homens, primeiro porque eles também são vítimas do patriarcado e, segundo, porque a luta não deve ser de gênero. Porque se não, vamos subsumir tudo em gênero e isso é recuar contra o que estamos lutando: que as mulheres não são definidas por seus genitais.”

Se é verdade que “o patriarcado não é o masculino, é um sistema de opressão, porque há até mesmo mulheres patriarcais”, como afirma Kohan, a conclusão (ou mesmo a afirmação) de Vargas Llosa faz todo sentido: “o único critério com o qual se continuará convidando os participantes será o da excelência literária.”

O feminismo não será, então, usado como prêmio de consolação.

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br