Deplatforming e censura: Política de atacar, escrachar e censurar adversários ganha força no Brasil e se ramifica

Raphael Tsavkko Garcia
Jul 22 · 4 min read

No Brasil, a política de deplatforming tem, há muito tempo, ultrapassado todos os limites do democraticamente aceitável. Na verdade, a prática hoje pode ser chamada de pura intimidação com o uso de ameaças e violência.

Chegamos ao momento em que tentativas de censura imperam.

E a prática não se restringe a apenas um campo ideológico, mas tornou-se quase uma guerra fria em que qualquer um que não esteja em um determinado campo político é considerado e tratado como inimigo.

O impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro acirraram os ânimos de ativistas de ambos os lados do espectro político que, pese já usarem sua influência pontualmente para impedir eventos ou falas “incômodas” em determinados espaços tem expandido suas ações (em especial a esquerda universitária impedindo posições contrárias de se manifestarem livremente, sejam alunos ou professores, com o uso de escrachos, piquetes, etc), tem ampliado suas ações.

À direita o primeiro grande caso de “sucesso” foi o do Queer Museu. Em setembro de 2017, ativistas de extrema-direita comandados pelo MBL, conseguiram suspender (na verdade, censurar) uma exibição de arte chamada “Queermuseu — Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, no Centro Cultural Santander, por esta supostamente promover “blasfêmia, pedofilia e bestialidade”.

À esquerda, também em 2017, ativistas censuraram, com violência, a exibição do filme “Jardim das Aflições”, um documentário sobre Olavo de Carvalho, astrólogo, auto-intitulado filósofo e guru do presidente Bolsonaro, na Universidade Federal de Pernambuco, em Recife. No mesmo ano, o festival de cinema Cine PE, na mesma cidade, foi cancelado após diversos diretores retirarem seus filmes da mostra em protesto à presença do filme sobre Carvalho.

Exemplos anteriores existem, mas a repercussão que os casos citados acima tiveram me faz crer que são um marco, uma linha cruzada.

O escrache e as tentativas (e casos de sucesso) de censura se concentravam em um lado buscando anular quem enxergavam como o outro invariavelmente chegavam à imprensa. Seja o lado dos apoiadores de Bolsonaro, seja o lado dos apoiadores do PT e do ex-presidente Lula: ambos enxergavam e enxergam a imprensa como inimiga.

Para ambos, a chamada “grande mídia” apenas propaga fake news, com os militantes mais radicais de cada campo político preferindo “informar-se” no que chamam de mídias alternativas, mas que na verdade costumam apenas roubar conteúdo da imprensa tradicional e funcionar como centrais de fake news à serviço do líder de seus respectivos campos ideológicos.

Em meio ao fogo cruzado, nos últimos anos jornalistas acabaram sendo forçados a se retirar de manifestações que cobriam sob pena de serem agredidos, foram impedidos de exercer livremente sua profissão e até mesmo ameaçados de expulsão do país ou confinados a espaços isolados com direitos básicos negados.

Ainda em 2004, o então presidente Lula, hoje preso por corrupção, exigiu a expulsão do jornalista Larry Rohter, do NY Times, por este ter dito que o então presidente bebia demais.

Este ano, um deputado próximo a Bolsonaro e muitos de seus apoiadores exigiram a expulsão do país de Glenn Greenwald, jornalista do The Intercept um dos principais nomes por trás na divulgação de conversas vazadas envolvendo juízes e promotores membros da Operação Lava Jato.

Greenwald vive há décadas no Brasil e é casado com um brasileiro, o deputado federal David Miranda. Durante a posse de Bolsonaro, diversos jornalistas foram confinados em uma sala e impedidos de cobrir o evento, assim como são inúmeros os casos em que Bolsonaro agiu com grosseria e em tom de ameaça contra jornalistas.

É difícil saber o que é pior, se a ação estatal (ou daqueles no poder) contra o exercício do jornalismo e a integridade dos profissionais de mídia, ou se a ação de indivíduos fanatizados que se enxergam à serviço de seu político favorito.

O novo capítulo desta guerra contra a imprensa — em que as únicas vítimas são aqueles que não declararam guerra à ninguém — é o cancelamento do convite à jornalista Miriam Leitão (e ao sociólogo Sérgio Abranches) para participar da Feira do Livro de Jaraguá do Sul.

Não se trata de uma das feiras mais importantes do calendário brasileiro, tampouco trata-se de uma grande cidade, no entanto o simbolismo de uma turba enviar ameaças via redes sociais para os organizadores do evento exigindo que os citados escritores não fossem convidados é ímpar.

Há apenas dois anos, a mesma Miriam Leitão lotou um auditório em Blumenau, cidade vizinha à Jaraguá do Sul. Suas posições pouco ou nada mudaram desde então, no entanto o comportamento polarizado do brasileiro em meio não só a uma guerra cultural entre ativistas identitários à esquerda e ativistas contrários ao “politicamente correto” à direita — e igualmente identitários — mas também a um clara ruptura na convivência social por causa da situação política trouxe o país a uma situação insustentável, um verdadeiro barril de pólvora.

Durante a Feira do Livro de Paraty, FLIP, o maior evento literário do país, ativistas pró-Bolsonaro tentaram impedir, com fogos de artifício e protesto, uma atividade com Glenn Greenwald.

Vemos o acirramento de ânimos no Brasil que talvez seja irreversível. O ódio político tem até mesmo separado famílias, acabado com relacionamentos e amizades e a polarização não parece que irá dar lugar a um ambiente de diálogo tão cedo. Pelo contrário, os sinais são de constante piora — como também da situação econômica do país.

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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