Evento na UFMG é cancelado por ação de turba de lacradores

Raphael Tsavkko Garcia
Aug 7 · 6 min read

Um evento com 7 mesas e 28 acadêmicos que enviaram trabalhos para serem selecionados e apresentados. Todos foram selecionados.

Segundo a organização do evento, eram 10 pessoas negras ou pardas e 12 brancas (outras não conseguiram identificar, até porque não faria realmente qualquer sentido).

Em uma das mesas, uma coincidência que seria irrelevante, não fossem aqueles sedentos por atenção e por lacração: Eram 4 acadêmicos brancos e mais o moderador, também branco.

Parece que professora Vanicleia Silva Santos, historiadora negra, concursada no departamento de História da UFMG, departamento onde estudei, realizou com seu grupo de pesquisa um seminário sobre África Pré-colonial. Houve apenas 28 trabalhos inscritos (10 de pessoas negras e 18 de pessoas brancas) e todos foram aceitos. Uma das mesas, seguramente composta por afinidade temática, como costuma ser na organização de congressos acadêmicos, desenhou-se com 4 pesquisadores brancos. Isso foi suficiente para que desencadeassem um linchamento virtual contra a professora.

Outras mesas eram mais diversas, no entanto, tudo isso é absolutamente irrelevante. Não apenas conhecimento não tem cor, não tem raça, como todos os que enviaram trabalhos foram aceitos, logo, não faz sentido que exista qualquer reclamação se acadêmicos negros que poderiam apresentar trabalhos na dita mesa simplesmente não enviaram nada.

Claro, alguns radicais gritavam que então deveriam ter chamado Quilombolas!

Para falar de África pré-colonial.

Sem falar nos que reclamavam que a organização não havia convidado este ou aquele acadêmico… Oras, não é assim que funciona um evento como esse. Há uma chamada e os interessados enviam propostas e, se aceitas, vão apresentar nas datas do evento. O desconhecimento mais básico do funcionamento de um evento acadêmico já deixa claro de início que as pessoas reclamavam por pura ignorância e apenas porque eram incitadas pela turba irracional.

Era uma turba reclamando que tem que ter “vivência”, “lugar de fala” pra falar sobre África de trocentos séculos atrás. Sério, é desesperador. Academia sendo violentada, conhecimento científico sendo escanteado e com conivência da própria academia que cede ao invés de mandar pastar. Sim, é fato que nem todos suportam um linchamento virtual.

Acompanhei a confusão desde o início. As postagens com imagens desta e de outras mesas foram apagadas. Mas esta imagem que abre o texto resistiu. E tem sido ainda usada como exemplo por lacradores e desocupados de todo tipo para “justificar” suas agressões à academia e à organizadora, uma mulher negra.

Em resumo, foram feitos vários posts na página do grupo de pesquisa “Áfricas” do Centro de Estudos Africanos, do Departamento de História da UFMG. Cada post com uma foto dos participantes de cada mesa. Tudo ia normal até a postagem com a foto da mesa 7, sobre cultura africana pré-colonial (inclusive com um trabalho sobre o Egito que, pasme, não era negro como lacradores tentam vender, tampouco Cleópatra, grega, era negra).

A história se desenrolou entre 1 e 2 de agosto.

Foi aí que a turba atacou, cinlusive com insultos racistas contra a organizadora, a professora Vanicléia Silva Santos que, vejam só, é negra.

Conversei, no Twitter, com outras pós-graduandas que estavam envolvidas na organização do evento, uma delas negra, que estava(m) pasma(s) com o absurdo que se desenrolava.

De maneira intempestiva (ainda que compreensiva) e cedendo à pressão dos linchadores, a organização do evento cancelou a mesa em particular e, em seu lugar, resolveu promover uma atividade de auto-ajuda racial para tentar contentar os revoltosos. Não funcionou, afinal lacradores quando sentem cheiro de sangue apenas ampliam a virulência de seus ataques.

Importante ressaltar que para alguns o problema era uma mesa inteiramente branca, pra outros era a mera presença de brancos — de qualquer branco — em um evento sobre África.

Infelizmente não printei as conversas antes de serem deletadas, mas salvei ao menos um trecho da mensagem da professora Vanicléia:

“Considerando a pertinência das manifestações feitas nesta página, eu, Vanicléia Silva Santos, coordenadora geral do evento, organizei esse evento juntamente com estudantes de graduação e de pós-graduação da UFMG. O evento foi amplamente divulgada pelas redes sociais, foram enviados emails para programas de pós-graduação do Estado de MG e fizemos divulgação pelas listas da Associação Brasileira de Estudos Africanos (ABE-AFRICA) e do GT Nacional de Estudos de Africanos da ANPUH. Nessas duas listas mencionadas, estão incluídos quase que a totalidade de pesquisadores de História da África. Recebemos 28 inscrições e todas foram aceitas porque estavam de acordo com os objetivos do Simpósio e também com o período. O foco do evento é fortalecer as pesquisas sobre África Pré-colonial que vem perdendo espaço no Brasil para as pesquisas para o período da África Contemporânea. Portanto, chegando ao ponto central das críticas apontadas aqui, a ausência de pessoas negras não reside numa exclusão de pesquisadores/as negras, mas da ausência de propostas feitas por pessoas negras.”

Após esta postagem ser também apagada parecia que o assunto iria perder força — aparentemente não foi o que aconteceu e hoje nos chega a notícia do cancelamento do evento às vésperas de seu início, causando prejuízos financeiros à universidade (e a nós, contribuintes) e aos acadêmicos envolvidos.

O evento era organizado por uma mulher negra. Tinha um conferencista internacional negro. Haviam negros apresentando nas outras mesas. Mas não foio suficiente pro racialismo brasileiro do século XXI, de pessoas que em sua maioria não fazem ideia do que significa a academia. A acusação era de que o evento promovia racismo institucional.

É absolutamente válido questionar a virtual ausência de negros em muitos espaços da academia, assim como defender a necessidade da aproximação do conhecimento acadêmico/científico daqueles saberes tradicionais que ficam fora dos muros da universidade, no entanto isso é diferente de acusar um evento de racismo por não contentar os desejos de radicais por pureza racial ou mesmo de tentar forçar a presença de “conhecimentos de fora” em um evento cujo propósito era eminentemente acadêmico — apenas porque para os radicais, brancos não podem falar sobre África.

Oras, eu não sou basco. Não sou descendente, não tenho parentes bascos, no entanto sou especialista em… bascos. E nunca tive qualquer problema, pelo contrário, sou muito bem recebido e reconhecido na minha área. Porque conhecimento não tem cor, raça ou etnia.

“Lugar de fala” nada mais é (ou deveria ser) que uma perspectiva. Mas hoje é cabresto e chicote. Quando escrevo sobre o País Basco adoto uma clara perspective de “outsider” — inclusive mencionando claramente este fato na minah tese de doutorado — , porém não deixo de expressar e embasarminha perspectiva.

Não existe lugar de fala na academia. Não existe luga de fala quando se trata de conhecimento. O que existe são perspectivas, e todas elas são igualmente válidas e necessárias.

Aliás, estamos falando de África pré-colonial, então a não ser que um africano que tenha hoje perto de seus 500 anos de idade ou mais resolva apresentar um trabalho, nenhuma perspectiva ali, num evento sobre África pré-colonial, seria de um “insider”. Nenhum ser humano vivo tem vivência sobre o tema ali tratado.

Aparentemente esta é a forma que certos setores de movimentos sociais resolveram adotar para “lutar” por seus direitos, ou melhor, lutar para prejudicar dezenas de acadêmicos, causar prejuízo financeiro a uma instituição de ensino e de quebra caluniar e atacar até mesmo pessoas negras cujos interesses os radicais dizem defender.

Me lembra muito a histeria sobre a festa da editora da Vogue em Salvador, em que a turba começou a gritar racismo sem sequer questionar as supostas vítimas tendo como conclusão o prejuízo financeiro para aquelas que estavam sendo protegidas de absolutamente nada.

O que vimos nesses últimos dias nada mais é que um exercício de intolerância e de ignorância. E isso é simplesmente inaceitável.

Eis a nota pública informando sobre o cancelamento do evento:

E a Carta Aberta de diversos acadêmicos em apoio à professora Vanicléia:

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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