Junho de 2013: A esquerda esmagada não criou a nova direita

Existe um raciocínio que diz que “a direita cresceu por culpa de Junho”. Sem dúvida o PT ter esmagado a esquerda nas ruas (ao lado do PSDB e do PMDB) não tem nada a ver com a história.

Junho foi esmagado na porrada pelo PT/PSDB/PMDB, aí a direita cresce diante da terra arrasada e a culpa foi de quem apanhou até a submissão. Desculpem por termos protestado, bom mesmo era ficar calado, deixar o PT roubando em paz e… Bem, só isso. #DemocraciaPraQue?

Enquanto a esquerda estava nas ruas os petistas faziam o que? Gritavam VAI PM. Mas claro, a culpa é da esquerda que apanhava da PM. Desculpem pelo incômodo, gentis PM’s, de ter colocado minha/nossa cara na frente de seus cassetetes e balas de borracha.

Enquanto petistas gritavam VAI PM — sim, importante insistir neste ponto, para que não seja esquecido ou tomado como algo menor — e tinha até gente do PSOL crítico de Junho, a direita aproveitou o espaço e o esmagamento.

MBL, Vem Pra Rua e outros movimentos cresceram do vácuo deixado pela repressão a Junho, pelo vácuo deixado pela ausência de forças tradicionais de esquerda, sindicatos e outros cooptados pelo petismo no poder. Quando se abre um espaço algo o ocupa.

A esquerda estava fazendo seu papel, estava nas ruas, reivindicando, impondo pautas. A suposta esquerda no poder não tolerou. Se juntou à pior direita para reprimir e submeter os descontentes, oras, algo iria surgir daí — e não foi imediato, mas um processo.

De um lado, pela esquerda, do lado progressista, surgiram as ocupações de escolas. Do outro, do espaço criado, a direita tomou corpo.

Ou seja, não foi Junho a “criar” a nova direita, a alimentar MBL’s da vida, mas o vácuo deixado pela ausência de setores da esquerda que, no poder, se aliaram com a direita e com(o) ela agiram — esmagando os descontentes.

Pode parecer que não há muita diferença, mas não se enganem, é a diferença entre uma relação de causa e efeito, ou mesmo de intencionalidade, e uma consequência externa, à revelia da esquerda combatente que estava nas ruas.

A nova direita não nasce/cresce pelos protestos de esquerda, mas pela repressão que a dita esquerda no poder exerceu, abrindo espaço para que novas opções políticas disputassem e ocupassem a arena política.

O Gabriel Brito matou a pau nessa série de tuítes:

A culpa é de quem nega o novo e apaga uma militância honesta em nome do velho e do que já fracassou retumbantemente.

A culpa é de quem passa 20 anos despolitizando e esvaziando lutas de todo tipo, depois perde o bonde e acha que o mundo tá errado.

A culpa é de quem vomita histericamente a palavra “esquerda” pra todo lado na hora do aperto mas depois só tem neoliberalismo a oferecer.

Bom, depois de uma greve autossabotada pelas velhas direções a gente devia entender mais ainda o que aconteceu naquele ano. Espaço vazio é espaço ocupado. A crise era global, movimentos parecidos ocorreram mundialmente e a casta do poder se uniu por igual

Exemplos de “raciocínios” necrogovernistas:

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Um aparte, não existe vácuo na política, como já escrevi:

A nova esquerda foi sufocada pela repressão apoiada pelo PT e seus gritos de VAI PM e aderiu em grande parte à narrativa vergonhosa de GOLPE. Não apresentam alternativas para além de um continuísmo mambembe do petismo (ou a continuidade do próprio).

Sobrou para a direita, ainda mais boçal e radical, apostar na antipolítica com MBL’s da vida, Revoltados Online e Bolsonazi.

Não existe vácuo na política, os espaços sempre serão preenchidos. Nós não preenchemos, a (extrema) direita e a direita antipolítica (Dórias da vida) preencheu ou está ensaiando a tomada do poder.

Mais exemplos de “raciocínios” necrogovernistas:

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O Gabriel conclui:

O Dieese apontou um recorde de greves no período 2009–12. Insistir que 2013 não nexo na realidade é uma impostura, tal como ligar MPL a MBL. Além do mais a gente não “vende 2013”, a gente simplesmente fez aquilo e continua fazendo coisas por aí. Enquanto isso sopram Aldo e Maia…

Quem “vende 2013” é o PT e suas narrativas fabricadas e tão mal intencionadas quanto às dessa nova-velha direita aí. Quem tem memória sabe que essa polarização petucana já tava um escárnio em 2010, no embate Serra-Dilma. O PT já era um animal morto ali.

O principal legado de Junho foi mostrar que era possível fazer política para além de estrutura sindical carcomida e de parasitas da UNE e afins. Para além, Junho politizou o país.

Raphael Tsavkko Garcia

Written by

Journalist, PhD in Human Rights (University of Deusto). MA in Communication Sciences, BA in International Relations. www.tsavkko.com.br

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