Outros Jeitos de Usar a Boca, de Rupi Kaur

Esse livro desnudou a minha alma. Se eu pudesse voltar no tempo, daria ele de presente para a minha versão de 13 ou 14 anos, que sonhava com um príncipe que ainda demoraria a chegar. Alguns anos à frente eu o reconheceria, mas não sem antes ter passado por tantas lágrimas e desilusões.

Minha adolescência foi marcada por muitas idas ao hospital. Meu pai teve insuficiência renal quando eu tinha 11 anos; minha mãe, câncer, quando eu estava com 13. Tinha duas irmãs mais novas e muitas obrigações domésticas, precisava dar conta de ter as responsabilidades dos dois adultos que em breve viriam a faltar. Neste ínterim, descobria-me como pessoa e como mulher. E não foi fácil entender a vida praticamente sozinha.

Ainda que eu tivesse tido uma adolescência diferente, normal, isso não seria garantia que eu teria o apoio integral da minha mãe, que nós teríamos conversas francas sobre relacionamentos. As gerações anteriores a ela não estavam acostumadas a conversar sobre sexo. Em muitos casos, mesmo tendo muitos e muitos filhos, as mulheres de antigamente passavam a vida inteira, em muitos casos, sem saber como é fazer amor.

Em Outros Jeitos de Usar a Boca, Rupi Kaur toca naqueles pontos sensíveis do que é ser mulher. Desde a infância, desde o primeiro contato físico. Fala de abusos, que eu felizmente não vivi, mas fala também do amor materno, do conhecimento do nosso corpo, da consciência de quando o sexo é verdadeiramente satisfatório para ambas as partes, sobre as dores da alma de ser mulher. Das belezas, mas, sobretudo, das amarras que diariamente lutamos para romper e sermos livres.

Com esse livro revivi relacionamentos fracassados, revivi a perda da minha mãe, seu amor maternal, e também as falhas do relacionamento dela e do meu pai, as concessões que ela fez e não devia. As concessões que eu também fiz, apesar do exemplo dela. Vi minha alma de mãe e de mulher exposta de uma forma tão bela e tão dolorida ao mesmo tempo. Também revivi relacionamentos que tive com outras mulheres, pois a amizade também pode ser tóxica. É incrível como podemos ser muitas e sermos apenas uma. Rupi Kaur é uma mulher que soube escrever sobre as mulheres. Sem censuras, sem críticas além daquelas que são necessárias para a nossa saúde mental, para nossa felicidade. Onde eu não consegui me enxergar, consegui ter empatia por aquelas mulheres que eu talvez nunca conheça, mas que eu tenho certeza que já passaram ou vão passar por algo parecido. É uma leitura até rápida, por sua densidade, que eu recomendo fortemente se você que está lendo agora for mulher. Recomendo para os homens também, para que saibam pelo menos um pouquinho sobre nós, sobre a nossa alma.

Cada homem que eu beijei está aqui nesse livro. Meu pai está nesse livro, minha mãe também. As mulheres da minha família estão aqui. Minha filha está aqui, assim como o pai dela. Mas o melhor de tudo é que eu também estou nesse livro. Acho que você também pode estar.

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