“A gente precisa recuperar o Estado”, afirma candidato ao governo do PSOL

Thales Schmidt
Sep 27, 2015 · 9 min read

Gilberto Maringoni comenta a disputa pelo governo, os abusos policiais e a crise da água

(Matéria originalmente publicada no Portal Particpi em 17/08/2014)

O professor universitário de relações internacionais e jornalista Gilberto Maringoni é o candidato ao governo do estado de São Paulo pelo PSOL. Indicado pelo partido após Vladimir Safatle desistir do pleito em meio a críticas, Maringoni já foi candidato a vereador em São Paulo em 2012 e defende a volta do Estado como indutor de crescimento, a desmilitarização da polícia e o fim do financiamento privado das campanhas.

Antigo militante do PT, o candidato hoje critica a inação do partido frente à prisão de manifestantes: “eles tremem na base, com medo de qualquer reação da direita ou da imprensa”, analisa Maringoni.

Dono de 1% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha realizada, o candidato do PSOL reconhece as dificuldades da empreitada. “É uma concorrência assimétrica”.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, Maringoni até o momento conta com R$ 38.828,00 para investir na campanha para o Palácio dos Bandeirantes. Já o atual governador e candidato a reeleição Geraldo Alckmin dispõe de R$ 5.738.135,08.

Qual é a expectativa para a campanha ?

Primeiro, acho que devemos colocar em pauta coisas concretas. Quero discutir temas que estão fora da agenda das eleições, o principal deles é a retomada do papel do Estado para concretizar projetos de desenvolvimento. Projeto de desenvolvimento não é projeto de crescimento econômico, é projeto de transformação social que tem crescimento econômico, investimento, melhoria na qualidade de vida e aumento da renda. Uma política que não agrida o meio ambiente.

Precisamos recuperar o Estado na sua capacidade de planejamento, de investimento, de indução de desenvolvimento, ou seja, o Estado determinar onde vamos investir.

O Brasil deve o sucesso que foi no século XX porque em 50 anos deixamos de ser uma fazenda de café e nos tornamos um país industrial moderno, isso graças à ação do Estado, que alocou recursos e investiu. São Paulo vive uma paulatina perca do papel do Estado porque tudo foi privatizado na área de infraestrutura; as empresas de energia, a telefonia, os bancos, as estradas, a ferrovia.

Temos a situação vergonhosa da ALL (América Latina Logística) que detonou um prédio histórico que é a Estação Ferroviária de Bauru, privatizou a Comgás e privatizou metade da Sabesp. O resultado é desastroso, as tarifas energéticas foram multiplicadas 3 vezes para os novos donos sentirem atração pelo negócio.

Mas, onde está pegando no calo hoje a questão da privatização ? No fato dos tucanos terem em 1995 vendido metade da Sabesp na Bolsa de Nova York e essa metade da empresa ser formada por ações que nem se sabe quem são os donos.

Nós estamos na iminência de uma crise de água por falta de investimento. E mesmo que você faça esses investimentos, eles são ineficazes porque se metade da companhia é privada, metade do investimento que você coloca lá é retirado como lucro e dividendo por acionistas, é o direito deles. O problema não são eles, o problema é quem fez isso.

Então, se você põe um milhão de reais na Sabesp, quase 500 mil vão para esses dividendos, e isso não pode acontecer. O investimento tem que ir integralmente para a melhoria dos serviços. A proposta é aumentar, capitalizar a parte estatal para que o investimento seja revertido em melhoria de serviço, esse é o sentido da candidatura, colocar isso em pauta.

Você ressaltou a importância de participar do debate. Hoje, qual é o nível do debate das candidaturas ?

As campanhas nunca foram tão caras e nunca foram tão rasas. Você fica discutindo quantas escolas vai construir, quantos quilômetros de metrô ou trem vai fazer, ou seja, é uma gincana. Um sujeito chega e fala: “eu vou construir 10 hospitais!”, aí o outro fala: “ah é? eu vou construir 20” e outro fala que vai construir 30. Quando você tem que definir onde vai interferir, qual política vai fazer, como será o funcionamento do Estado, isso eles não falam. Nem de onde vem o dinheiro. É tudo fantasia para enganar trouxa, é lorota pura.

Qual é sua avaliação do governo Alckmin, cujo partido está no poder há muitos anos ?

O governo está há 20 anos com o PSDB. Eu não preciso fazer uma avaliação, se você estuda na UNESP, na UNICAMP ou na USP, você vê que a universidade está estrangulada. Se você é usuário do metrô de São Paulo, como eu, vê que o sistema vive dando pane, vê a falta de investimento na Sabesp.

Falta investimento e falta transparência, você tem uma série de denúncias de corrupção, o caso mais vistoso é o do Robson Marinho, presidente do Tribunal de Contas do Estado, que é um homem que deveria zelar pela lisura das contas públicas e tem um modo de vida incompatível com seus ganhos. É um homem que tem uma ilha no litoral norte, é um homem que não consegue explicar um depósito de um cheque de 3 milhões de doláres em uma conta da Suiça*. Essas denúncias você não consegue aprovar na Assembléia porque tem um rolo compressor do governo tucano. Soma-se a isso o autoritarismo e a brutalidade policial que nunca se viu, só se viu no tempo da ditadura.

*: Robson Marinho foi afastado do cargo um dia após a entrevista, Marinho é suspeito de receber propina da multinacional francesa Alstom.

Nós temos mais de dois meses de greve nas estaduais paulistas, como essa situação pode ser resolvida e como deve ser a política de educação de São Paulo ?

No caso das universidades, a gente tem o problema que elas estão estranguladas, os salários dos professores defasados e pesquisas sendo cortadas. É preciso uma readequação, aumentar o percentual de destinação do ICMS. E fazer um pente fino, ver como está a gestão nessas universidades. O que não pode é paralisar, por que significa cortar um pedaço importante da inteligência paulista.

Qual é a responsabilidade do atual governo estadual na crise da água ? Você acha que a falta d’água foi um problema subestimado ?

Não sou eu que acho, existe um relatório onde a própria Sabesp em 2004 apontou problemas de abastecimento no médio prazo. O último grande reservatório que temos, o do Alto Tietê, é de 1993. Há 20 anos não se constroí um reservatório novo. Períodos de estiagem são sérios, você tem que prever isso. Por que Paris e Nova York atravessam períodos de estiagem e não ficam sem água ?

Apesar do tamanho do problema da falta de água, é um assunto pouco comentado nos debates e na mídia. A imprensa trata o governo Alckmin de uma maneira diferente dos demais ?

Quando algum membro do PT é pego fazendo algum tipo de desvio de conduta, é um petista pego. Quando é uma figura proeminente do PSDB, no caso um secretário de governo do Covas — o Robson Marinho — não aparece “tucano pego”, aparece Robson Marinho. Eu acho que existe uma blindagem sim, essas figuras do PSDB são protegidas, mas agora menos porque a crise da água está muito escandalosa, muito séria.

A Polícia Militar de São Paulo é uma das mais violentas do Brasil e o seu programa de governo é um dos poucos a falar sobre a desmilitarização da força policial. Qual é a importância dessa pauta e como a desmilitarização pode ser implementada ?

Temos um dos maiores efetivos do Brasil, são 140 mil políciais divididos em duas policias entre várias funções. A Polícia Civil foi criada em 1970, na época da ditadura, quando se subordina as Forças Públicas às Forças Armadas e trouxe para as polícias a mentalidade que a figura que eu tenho que enquadrar é o meu inimigo, ele tem que ser eliminado. Gerou-se uma cultura de violência que se volta especialmente contra os mais pobres e os movimentos sociais, essa é uma cultura que precisa mudar. Além disso, é preciso aumentar o poder dissuasório da polícia e unificar as duas polícias — civil e militar — para que não exista sobretrabalho.

Existe uma minoria de policiais muito violentos e que participam de milícias e tem uma maioria que são trabalhadores, nós vamos fortalecer o aparato policial aumentando os salários e impedindo essa violência. E também vamos tirar de cena essa cultura de violência em que tudo se resolve com gás lacrimogênio e bala de borracha, especialmente contra os pobres e movimentos sociais.

Ainda sobre a PM, recentemente o manifestante Fábio Hideki foi preso acusado de portar explosivos, acusação que mais tarde se provou falsa. O Fábio foi um preso político ?

Vamos tentar chegar em uma conclusação do que aconteceu, ele (Fábio Hideki)

foi preso sem prova alguma, com base naquilo que a polícia vive fazendo na periferia, foi acusado de portar explosivo e não se provou que havia um explosivo. Eu acho muito engraçado esse setor da polícia não conseguir identificar o que é um explosivo, o nosso policial não tem preparo para saber que com uma garrafa de plástico não se faz um coquetel molotov.

Quarenta e cinco dias preso, ele e o outro rapaz (Rafael Lusvarghi) e, como nada ficou provado, ele foi solto. A polícia precisa responder sobre isso, isso é um absurdo. Mas, se você pensar que a polícia do Estado de São Paulo, segundo o próprio secretário de Segurança Pública Fernando Grella, resolve 2% dos crimes contra o patrimônio, ou seja, 98% dos casos de furtos e roubos não são resolvidos. Se roubarem seu carro, você faz o Boletim de Ocorrência para receber o seguro, porque você sabe que nada vai ser resolvido, isso é uma polícia ineficiente. É preciso treinar a inteligência da polícia e o policiamento preventivo.

O governo federal foi criticado por não se pronunciar sobre esses últimos episódios de prisões de manifestantes, o PT deveria ter uma postura diferente em relação aos abusos policiais ?

Se a gente tivesse um Ministro da Justiça que se desse ao respeito ou uma Ministra dos Direitos Humanos que dissesse a que veio, imediatamente alguém iria verificar o que está acontecendo. No entanto, a gente tem uma coisa frouxa, eu não consigo entender se esse José Eduardo Cardozo e a Ideli Salvati merecem o cargo. É claro que o governo federal poderia ter feito alguma coisa, mas eles tremem na base, com medo de qualquer reação da direita ou da imprensa. É gente despreparada, mole e sem condição de enfrentar nada. É uma coisa triste, eles não são só desqualificados do ponto de vista técnico, é gente pusilânime, frouxa.

Hoje, os maiores financiadores das campanhas são as empreiteiras, junto com o financiamento privado. Quais são as consequências disso para a política ?

O financiador da campanha não financia porque gosta do candidato, ele financia porque está investindo. Ele paga uma campanha para quando o sujeito é eleito, o financiador ter as obras e o favorecimento no mandato, essa é a raíz da corrupção no Brasil. Enquanto não se proibir a contribuição de empresas, nós vamos ter essas anomalias acontecendo nas prefeituras e governos. As campanhas vão ficando cada vez mais caras, tornando a competitividade mais difícil. É muito difícil um partido como o PSOL fazer uma campanha com o volume de material, como fazem as grandes campanhas.

Como é a concorrência com essas campanhas milionárias ?

É uma concorrência assimétrica. Nós estamos fazendo campanha porque a gente acha que é um dever fazer campanha, 25% das pessoas não sabe em quem votar, vai votar em branco ou em nulo, e nós queremos disputar esses indecisos e muitos daqueles votos progressistas, que um dia foram votos especialmente do PT.

Algumas estimativas apontam a votação do PSOL entre 2% a 6%, qual sua expectativa para essa eleição ?

Eu não conheço esses números, como nós não fazemos pesquisa — porque não temos dinheiro — a gente não pode ter uma expectativa, tudo é chute. Eu quero ter o maior número de votos possível, vou me esforçar pra isso junto com o partido, então eu não tenho projeção de votos. Quem tem pesquisa qualitativa e quantitativa sendo feita toda essa semana, tem essa projeção.

A gente quer dobrar nossa bancada de 3 deputados federais, queremos ter uma presença maior nos governos que estamos disputando. Eu vou disputar para ganhar, você nunca saí se não for pra ganhar e nós sabemos as dificuldades disso.

Thales Schmidt
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