IML de Bauru homenageia médico ligado ao regime militar

Thales Schmidt
Sep 27, 2015 · 2 min read

Foto por: Daniel Zanini H.
(Reportagem originalmente publicada no Portal Participi em 13/07/2014)

Está em discussão na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) um projeto de lei do deputado Adriano Diogo, PT, para alterar o nome do IML em Bauru. O Projeto de Lei Nº 816 de 2014 pretende trocar o nome de Jair Romeu, conhecido colaborador do regime militar, por Alberto de Souza, participante da Coluna Prestes e preso político do governo Vargas. A alteração é um pedido Comissão da Verdade “Irmãos Petit” de Bauru.

“Aqui em Bauru não houve diretamente um centro de tortura, mas houve aqui repressões. O que há muito é o desdobramento da Ditadura em instituições estatais”, diz Clodoaldo Meneguello Cardoso, coordenador do Observatório de Direitos Humanos da Universidades Estadual Paulista (UNESP). Clodoaldo acredita que a construção de Centros de Memória com informações detalhadas sobre o regime pode ajudar a população a entender melhor o período de exceção vivido pelo país.

Jair Romeu ficou conhecido por marcar com um “T” em vermelho as fichas das vítimas da repressão estatal. O auxiliar de necropsia, depois promovido à condição de chefe de necrotério, também era responsável por encaminhar os corpos de presos políticos com identificação trocada e dificultar o acesso aos cadáveres. Sua função era trabalhar como um homem da confiança da Operação Bandeirante (OBAN), atividade reconhecida até mesmo pelo próprio autor dos crimes em seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Vala Clandestina de Perus.

Apesar da conhecida ligação de Romeu com a Ditadura, em 2002 o então deputado estadual bauruense Carlos Braga, atualmente no PSDB, resolveu homenagear o antigo chefe de necrotério. Por meio de um projeto de lei em que afirma que Romeu “incansavelmente atuou nos mais diversos casos de morte violenta, ajudando a polícia e a justiça a desvendar inúmeros crimes”, Braga alterou o nome do Instituto Médico Legal da cidade.

“É um nome que deve ser esquecido, lavado da face da Terra. Mas, seus atos não podem ser esquecidos, eles tem que ser compreendidos e analisados para que nunca mais se repitam.” afirma Carlos Roberto Pittóli, advogado e membro da Comissão da Verdade municipal.

Alberto de Souza, o possível nome do Instituto Médico Legal, ficou paralítico devido às torturas sofridas por agentes do governo Vargas em 1935. Logo após, Souza mudou-se para Bauru, cidade onde ficou até sua morte em 1991. Sua história foi marcada pela participação em importantes momentos políticos nacionais, como a luta pela redemocratização, a anistia e as “Diretas Já”.

Written by

política, sociedade e direitos humanos. jornalista pela unesp

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