
Amor de Mãe.
Há vinte anos atrás minha mãe descobriu que tinha um minúsculo nódulo na mama. Ela não sentia nenhum outro sintoma que pudesse diagnosticar algum problema, apenas um pequeno caroço. Não sentia dor, inchaço, coceira, nada. Naquela época a campanha de prevenção contra o cancêr de mama já falava da importância do autoexame com o toque e foi nesse autoexame que ela descobriu o nódulo.
Foi ao médico e infelizmente o diagnóstico se confirmou. Como minha mãe era magrinha e com uma mama pequena, apesar do médico ter a necessidade de retirar apenas 1/3 da mama eles decidiram pela retirada total da mama pois esteticamente ficaria “menos traumático”.
De todo o processo de mastectomia, quimioterapia, o mais doloroso para minha mãe foi conviver com os efeitos colaterais estéticos e psicológicos que essa doença gera. Muito vaidosa, ficar sem cabelo, com uma cicatriz imensa no lugar do seio foi literalmente uma primeira morte. De todos os efeitos a depressão é o pior deles, não apenas por atingir ela mas por atingir a todos os envolvidos sentimentalmente na situação.
Um dos piores momentos da doença em que eu passei junto com ela foi no dia que ela precisou raspar a cabeça. Ela demorou a aceitar o diagnóstico, na verdade ela nunca aceitou. Por nunca ter sentido nada, por ter apenas um minúsculo caroço era difícil acreditar que estava doente e quando o cabelo começou a cair, ela resolveu que ia esperar ele cair naturalmente e não o rasparia.
Ela tinha o costume de lavar a cabeça no tanque de roupa e não no chuveiro, colocava a cabeça debaixo da torneira para o shampoo escorrer pelo tanque. Nesse dia não foi apenas o shampoo que escorreu, sendo que alguns tachos de cabelos que caíram se embolaram nos cabelos longos que ainda permaneciam de forma que a única maneira de tira-los era raspando.
Eu era a única pessoa que estava em casa, aos 12 anos, não sabia o que fazer. Recorri a uma vizinha amiga que prontamente ajudou minha mãe a raspar o que havia sobrado dessa trágica lavagem de cabelo.
Esse de fato foi o dia mais triste da minha vida, tive uma crise nervosa em que não consegui conter o choro. Nos abraçamos e ela que precisava de conforto foi quem me confortou. Nesse momento ela fez a maior declaração de amor que já ouvi na vida. Não lembro exatamente as palavras mas meu desespero de certa forma demonstrou pra ela o quanto eu a amava e até então nunca havia conseguido me expressar.
Mamãe nunca aceitou a doença e após esses dois processos (mastectomia, quimioterapia) ela deveria por mais 5 anos fazer hormonoterarpia e exames a cada 6 meses. Porém religiosa como era, ela decidiu acreditar em sua fé e “tomar posse da cura”.
Nesses 5 anos fez apenas 2 exames e nenhuma hormonoterapia. Segundo ela o médico havia dito que se a doença não voltasse nesses primeiros 5 anos ela estaria curada. A doença não voltou (nesses primeiro 5 anos) e ela recebeu e tomou posse da cura, inclusive com testemunhos e cultos de ação de graça em igrejas e células de oração.
Infelizmente 15 anos depois mamãe descobre uma metástase óssea. Os médicos custaram a acreditar que a metástase era decorrente do cancêr que ela havia tido a tanto tempo atrás.
Cismaram que deveria ser de algum outro cancêr que se desenvolvera. Foram alguns meses fazendo exames para tentar descobrir onde esse novo cancêr se encontrava. Em vão, a conclusão final foi que a metástase provavelmente era decorrente daquele simples nódulo que mamãe nunca acreditou que fosse cancêr, que dizia muitas vezes ter sido acometida de erro médico.
Eu decidi, talvez meio que inconscientemente, a não vê-la morrer. Na verdade, eu sou como ela, demoro a acreditar em coisas negativas para minha vida e acreditei que ela pudesse viver um pouquinho mais a cada dia que passava. Me recusei a viver “contando os dias” ou “torcendo” para que ela descansasse logo. Me recusei a parar minha vida para espera-la morrer, porque na minha cabeça era como se eu tivesse agorando minha própria mãe. Muitos não entenderam minhas atitudes, mas hoje isso pouco importa.
De todo esse processo se me perguntarem se eu faria tudo novamente eu diria que não, que mudaria muitas coisas que eu fiz ou faria muitas outras que deixei de fazer. Se me perguntasse se tenho algum arrependimento, eu diria que o único que eu tenho foi de não ter, há 20 anos atrás, tido determinação para acompanha-la sempre ao médico naquela época, na maioria das vezes ela ia sozinha.
Me arrependo de ter acreditado quando ela disse que segundo o médico, ela não precisava fazer mais nada e apenas esperar para ver se a doença voltava ou não, durante os primeiros 5 anos.
Na verdade eu não sei nem se ela mentiu quanto a isso ou se foi enganada em mais um dos muitos descasos médicos recorrentes em nosso país. Se eu pudesse voltar no tempo, eu exigiria que ela continuasse o tratamento de hormonoterapia até o fim. No entanto paro pra pensar e não sei se posso me culpar por não ter tal maturidade aos 12 anos de idade.
Não sei se tenho alguma lição para tirar disso tudo, não sei porque acordei e decidi escrever tudo isso após ter visto um vídeo da campanha O Cancêr de Mama no Alvo da Moda. Apenas achei que deveria escrever, talvez como terapia para essa vida sofrida que vou levando.Talvez para alertar aquelas mulheres que como mamãe relutam a acreditar no diagnóstico a lutarem de verdade, com todas as forças contra o cancêr. Talvez para alertar a mim mesmo a me cuidar melhor e não cometer os mesmos erros. Seja lá por qual motivo for, vou seguindo nessa luta nossa de cada dia.
Publicado originalmente no tumblr dia 28/10/2015.
