
Cultura & Pessoas — A perspectiva do vale do silício.
“Becoming is better than Being” — Carol S. Dwek, Mindset: The New psychology of Success -
Você já ouviu falar que o cérebro das vacas é influenciado pelo campo magnético e por isso estão sempre com seus corpos alinhados na direção norte-sul? Sério, dá um Google se você não acredita. Agora, o que me chamou mais atenção nessa história, foi como descobriram isso. Foi usando o Google Earth e analisando cerca de 8,5 mil vacas pastando em mais de mais de 300 diferentes lugares do mundo.
Ok, mas o que isso tem a ver com Cultura e Pessoas? Tudo e mais um pouco.
O Google Earth foi inventado graças a uma cultura altamente voltada para experimentação e aprendizado, característica das empresas do Vale do Silício (Silicon Valley, na California, sede do Facebook, Google, Apple, Tesla, Netflix, e tantas outras). Uma mistura de curiosidade, alinhada a muita persistência, num ambiente que promove e premia a inovação (o Google, que nasceu no Campus da Universidade de Stanford, é resultado de algo único que hoje só encontramos de forma madura na região), altíssima capacidade intelectual associada a ampla disponibilidade de capital via investidores-anjo ou VC’s.
Mas, para mim, a principal característica está na forma de pensar das pessoas. Elas transpiram as inovações do Vale. Mindset. Uma forma de pensar voltada para a constante experimentação, aprendizado, disrupção e decisões rápidas. Uma forma de pensar voltada para criar uma cultura de geração de ideias, real capacidade de aprendizado e adaptação.
Quer um exemplo?
Reed Hastings, fundador da Netflix, vendeu sua antiga companhia, Pure Software, por 750 milhões de dólares. Ao criar a Netflix, teve o mesmo pensamento estratégico de sua antiga empresa, mas sabia que não poderia errar em uma coisa: cultura da empresa. E a cultura é formada, vivida e construída pelas pessoas. Melhor ainda: pelo comportamento e atitude das pessoas.
Nos anos de Pure Software, sempre que encontravam algum problema no software, no processo de venda, no atendimento, os líderes se reuniam para entender que procedimentos deveriam ser colocados em prática para torná-los “à prova de leigos” e evitar novos erros. O que Reed percebeu muito mais tarde é que ao fazer isso, ele estava matando a capacidade criativa por indiretamente valorizar “seguir e ater-se aos processos” e, portanto, atraindo pessoas que valorizavam o conforto e a segurança de um ambiente com poucas mudanças. Isso tornou a empresa mais burocrática, lenta e complacente — incapaz de mudar e evoluir quando foi mais preciso. Obviamente, a Pure Software era uma empresa de software, e seu coração deveria estar na capacidade de evoluir com seu produto e inovar. Por isso, criar uma cultura voltada para inovar era tão fundamental.
Você já deve ter ouvido falar dos famosos slides feitos pela Netflix sobre sua Cultura. Chamado de “Culture Deck”, seu conteúdo já foi lido e analisado por mais de 10 milhões de pessoas. Talvez mais. Ficou interessado? Veja aqui. Foi sua experiência na Pure Software que fez Reed escrever este documento, que hoje virou referência. Ele queria garantir que contrataria pessoas que pensassem ativamente no que fosse melhor para a empresa, e não pessoas acostumadas ao conforto de apenas “seguir o processo”. Ele as chama de “First-principle thinkers”: pessoas com capacidade para construírem com ele a cultura de uma empresa que se parece muito mais como um time esportivo do que com uma família: alta performance, missão compartilhada e evolução individual e coletiva constante.

Para Eric Schimidt, Chairman do Google, há duas características deste tipo de profissional que tem maior relação com o sucesso profissional: curiosidade e persistência. Curiosidade porque em um ambiente com tantas incertezas e mudanças, uma pessoa curiosa tem muito mais chance de construir valor para a companhia e sociedade. Persistência é um ingrediente complementar a isso. Não significa tentar varias vezes a mesma coisa, mas ter a capacidade de tentar, aprender, mudar a estratégia e tentar novamente. Sem desistir.
Para mim, curiosidade e persistência só fazem sentido e são realmente são poderosas quando colocadas em uma cultura que valoriza a experimentação, o aprendizado e decisões rápidas.
Mas, o que exatamente significa experimentação nesse contexto?
1 — Testar novas hipóteses para aprender.
Não há como prever o futuro, apenas tentar criá-lo. E a melhor forma não é sentado e refletindo sobre ele; é conversando com as pessoas para entender quais são suas dificuldades no dia-a-dia, que problemas precisam ser resolvidos. Depois, criar hipóteses (ou possíveis soluções) sobre estes problemas e colocá-las em prática através de pequenos protótipos, testando a aceitação das pessoas/clientes/prospects. Importante: criar e testar hipóteses significa estar errado inúmeras vezes, o que é natural em qualquer processo de descoberta.
Sheryl Sandberg, COO no Facebook, coloca da seguinte forma: enxergue as críticas (ou os erros) e pontos de vista diferentes como uma parte natural do seu crescimento, do seu time e do seu negócio. Aprenda com os erros. Nao esconda-os, abrace-os. É através deste processo que se constrói uma empresa realmente resiliente e preparada para o futuro.
O ponto crucial aqui, para mim, é entender que não basta sair por aí experimentando qualquer coisa. É preciso ter claro qual o problema estamos tentando resolver. As hipóteses testadas precisam nos trazer informações que nos ajudem a tomar decisões que impulsionem a empresa na direção certa.
2 — Experimentação nos ajuda a eliminar o “dono da verdade”
Testar novas hipóteses (e, obviamente capturar os feedbacks e dados) ajuda a empresa a tomar melhores decisões para evitar o famoso “dono da verdade”. Não estou dizendo que intuição não seja importante. Ao contrário. Intuição é fundamental, mas ela é ainda mais poderosa quando nós temos as informações corretas; quando nós temos dados reais sobre os clientes, quais suas necessidades e como seu produto ou serviço está resolvendo um problema para ele.
Estamos muito acostumados com as historias heróicas de Apple, Google, Facebook. Acostumados com a idéia de grandes líderes. Gênios e visionários, capazes de prever o futuro. Mas olhando mais de perto, não foi apenas uma visão futurística de Steve Jobs que tornou a Apple umas das empresas mais valiosas do mundo. Ok, quem sou eu para julgar a liderança de Steve Jobs. Meu ponto não é esse. Veja.
O iTunes não foi planejado e lançado para mudar e dominar o mercado de músicas. O objetivo era aumentar o valor percebido dos desktops da Apple, mercado que ela, até então, tinha apenas 3% de market Share. Imaginava-se que, um serviço exclusivo de música tornaria o desktop da Apple mais atraente e portanto, a Apple aumentaria seu market share. A Apple era uma empresa de computadores. Com a explosão da compra de músicas pelo iTunes (10 milhões de downloads em 3 meses), a Apple percebeu que estava se tornando uma empresa de música e não mais uma empresa de computadores. A venda de iPods e músicas passaram a representar mais da metade das receitas da empresa. O grande movimento, assim, foi disponibilizar o software do iTunes para usuários de Windows (dono dos outros 97% de mercado).
Por quê estou usando este exemplo? Porque Steve Jobs sempre foi contra abrir iTunes para Windows. Foi convencido após diversos meses, por vários diretores (que obviamente mostravam os dados de crescimento doas receitas com o novo serviço), de que poderiam gerar muito mais valor ao abrir a plataforma para os outros 97% do mercado de computadores que utilizavam o Windows. O herói visionário, mudou de idéia e levou em consideração as informações e aprendizados do lançamento do iTunes. Que bom. Hoje temos serviços incríveis de musica, filmes, apps, por causa dessa mentalidade de aprender sempre e mudar o rumo estratégico.

Inicialmente, ao ser questionado sobre expandir o iTunes para Windows, a resposta de Jobs foi “Hell will freeze before we release iTunes to Windows!”. A foto acima foi a mensagem dele ao anunciar que a Apple estava expandindo sua plataforma de músicas para Windows (17/10/2003)
3 — A cultura é construída, vivida e melhorada pelas pessoas.
Em primeiro lugar, para que todos consigam se engajar com a missão e cultura de uma empresa é preciso que eles a conheçam. Por isso, investe-se muito em comunicar a missão e, principalmente, qual o propósito de existência da empresa. Por que existimos e o que torna nossa cultura distinta de tantas outras?
Como líder, o que você quer é ter pessoas que estejam alinhadas com a missão e sejam entusiasmadas com a razão de existir da empresa. Só assim você conseguirá espaço para construir uma cultura única e ter funcionários realmente envolvidos. Compartilhe a missão com todos, a todo tempo. Relembre-os sempre onde quer chegar e construa com eles “como” chegaremos lá.
Parece fácil, simples. Mas não é. Fácil e simples é o líder definir a missão e propósito da empresa e enviar a todos por email e dizer, é pra lá que vamos. Mas é incrivelmente ineficaz. O envolvimento é parte fundamental da construção da cultura da empresa e da estratégia para se alcançar a missão. Todos na empresa precisam sentir que são realmente donos da cultura, e para isso precisam genuinamente acreditar nela.
E experimentação é uma forma fundamental de envolvimento com a cultura da empresa. Ela dá voz a todos dentro da empresa e fomenta uma cultura de compartilhamento de idéias, opiniões e de trabalho em conjunto. Ao dividirmos informações, nós aprendemos e estimulamos os funcionários a falar, a oferecer sua opinião. Isso é fundamental, pois são eles que entendem mais do que ninguém sobre o que está havendo na empresa, e quais são as dificuldades que eles (e os clientes) tem.
Em uma cultura de experimentação, o líder deve promover o debate franco e aberto. Novamente, é mais simples falar do que realmente fazer isso acontecer, mas sem um espaço livre para troca de idéias, opiniões e acordos, me parece difícil que a empresa consiga investir em novas idéias ou testes de mercado.
4 — Experimentação coloca a empresa em posição de “alerta” o tempo todo.
Uma das grandes preocupações para o fundador da Netflix é ter pessoas na empresa capazes de rapidamente se adaptar as novas realidades e tecnologias. Em sua grande maioria das vezes, as inovações são fruto de aumentos incrementais dos produtos, serviços e processos atuais. Mas de vez em quando, uma nova idéia, tecnologia aparece como um relâmpago e muda completamente a natureza e essência de uma industria centenária. Por isso, ter as pessoas certas (e mais importante ainda, não ter as pessoas erradas na empresa), é o primeiro passo para o sucesso da empresa no longo prazo.
Continuamente testar novas idéias e hipóteses coloca a empresa em posição de alerta para continuar a aprender todos os dias. Continuar a aprender para poder encontrar e criar o futuro da empresa e da indústria. E criar o futuro da empresa significa realmente construir planos e quebrá-los o tempo inteiro: todos os dias há novas informações, novos competidores, novas tecnologias, novos consumidores, novas oportunidades. E o modelo de controle e comando definitivamente parece ultrapassado diante de tudo isso. Para sobreviver é preciso experimentar (muito, de forma inteligente), aprender e se adaptar. Rápido.

Finalmente…
Cultura é um organismo vivo, em constante construção. Portanto, tenha ao seu lado pessoas que ativamente se perguntam: o que é melhor para a empresa? Há alguma forma melhor de fazer? Qual o real propósito de existirmos que o que isso significa em termos de produtos e serviços? Invista em uma cultura transparente, onde as pessoas exaustivamente saibam para onde a empresa está indo, qual sua direção e quais comportamentos são reconhecidos e valorizados.
Por quê decidi escrever sobre isso? Participei de um curso em Stanford, no coração do Vale do Silício, e pude viver e conhecer um pouco dessa realidade. Conhecer um pouco desse grande laboratório para o mundo e aprender que tenho muito mais para aprender. Como pessoa e como líder.
Uma coisa ficou bastante clara para mim: tudo começa com as pessoas e como o líder molda a construção de uma cultura que aumente a vantagem competitiva da empresa no mercado. Nunca é tarde para começar, aprender e melhorar.
"A melhor época para se plantar uma árvore foi há 20 anos atrás. A segunda melhor época é hoje". Provérbio Chinês.Comece.
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Tiago Galli é atualmente GM da Porto Seguro Conecta, a operadora de celular da Porto Seguro que por 2 vezes consecutivas foi eleita a melhor operadora celular do país, segundo pesquisa oficial da Anatel em 2016 e 2017 (em todos os quesitos). A Porto Seguro criou a Porto Conecta porque acredita que a telefonia celular pode ser mais simples, mais transparente e com um atendimento que respeita o consumidor. Nosso time trabalha com paixão para genuinamente oferecer uma experiência incrível em telefonia celular. Uma experiência que só a Porto Seguro pode oferecer. Visite www.portoseguroconecta.com.br para saber mais.
