Externando o caos

Estava trancada no meu quarto, deitada no chão e olhando para o branco uniforme do teto, quando pensei em prédios out of no-fucking-where. Sim, cortei bruscamente a tranquilidade que até então pairava em minha visão, me levantei e sentei em minha janela, balançando as pernas do lado de fora, enquanto observava aquelas montanhas não lineares que se amontoam em nosso horizonte urbano todos os dias.

Já perceberam como prédios são tão… caóticos? Não há um padrão. Não há uma ordem. Eles apenas brotam e simplesmente são inquestionados. São irregulares. São plurais. São feios. E, ao mesmo tempo, são bonitos.

Em meio a esse pensamento, não tive como fugir de fazer uma analogia a nós mesmos. É como se fôssemos prédios. Estamos aglutinados nesse mundo e não questionamos mais as razões de sermos. Apenas somos. E cada vez mais sentimos que somos irregulares, diferentes, defeituosos, não encaixamos, ou não deveríamos estar onde estamos.

Caminhamos na direção de um fim de aparências individuais, enquanto esquecemos o coletivo. Somos prédios tortuosos, nos multiplicando sem controle algum, embora pensemos que temos um plano estruturado. É ilusório: não há plano algum.

No entanto, em meio ao horror que aparenta ser esse cenário, há um conforto. Pode-se dizer que o que vemos lá fora funciona como um espelho refletindo o nosso caos interno. Mas é válido lembrar que o caótico é belo. Afinal caos é a mistura de felicidade e tristeza, luz e escuridão, bom e mau.

Aprendendo a lidar com o caos, se aprende também que antagonismos coexistem. E que não há errado nisso. Na verdade, não existe certo, nem errado. Existem diferenças, visíveis (físicas) ou não (ideais).

Os prédios são desordenados e pluri. Os prédios nos guardam e nos escondem. Nós também somos desordenados e pluri. O caos imerso no caos. E tudo isso está invisível para a maioria de nós… porque preferimos ficar olhando para o teto enquanto tantos outros pensamentos novos poderiam surgir se fôssemos olhar pela janela.