
Ao Marley da minha vida
Uma pequena homenagem ao cão-pessoa que compartilhei a minha vida. Aos que enxergam esse relacionamento como "é apenas um cachorro", convido-os à leitura para repensar nessa relação — ou a fechar o link.
Tudo era sobre você. Tudo era voltado a você.
Se iríamos a um restaurante e você não podia ir junto, voltávamos rapidamente para que você não ficasse sozinho.
Antes de sair de casa? Acende a luz para o Benny!
O pote do Benny tá com água? Ele já comeu?
Quando pretendíamos passar um dia fora, nós saíamos apenas onde você pudesse ir. Quando não tinha jeito, revezávamos para lhe deixar o menos tempo possível sozinho. Ainda que soubéssemos que você dormia durante a nossa ausência, deixá-lo sozinho mais do que quatro horas não era uma opção.
Não era fácil sair de casa sem você, sempre olhando fixamente com a cara de pidão que todo cachorro nasce sabendo fazer. Mas, difícil mesmo foi sair de casa pela última vez, com você no colo, e saber que você nunca mais pularia naquela porta da sala pra abri-la e entrar.
Logo você, tão ansioso pra passear e com a mesma alegria em voltar pra casa, saiu de casa carregado e sem respirar direito. Confesso que foi um alívio vê-lo partir porque vi que tinha parado de sofrer; mas que dor foi sentir esse alívio e saber que não lhe veria mais.
Que saudades de chegar em casa e lhe encontrar passeando na rua, daquele seu jeitinho saltitando. Que ruim é chegar em casa e não escutar você latindo e farejando antes de eu abrir a porta. Que difícil é poder escancarar a porta agora, já que antes você sempre estava atrás, abanando o rabinho e olhando pra cima pra encarar o rosto de quem estava chegando.
Mais do que fizemos você feliz com as inúmeras bolinhas, paninhos, petiscos e passeios, você quem nos fez feliz e nos ensinou tanta coisa.
Para mim, a primeira coisa que você ensinou foi que eu não precisava ter medo de cachorros. Com o seu jeitinho espoleta e feliz, você conquistou o coraçãozinho da menina com medo de animais e foi o meu companheiro número 1 por mais de dez anos. Mostrou-me, por meio das melhores lembranças que eu carrego, o quão gostoso é ter essa companhia canina.
Você me levou e buscou no colégio, você me levou e me buscou na faculdade; participou de casamentos, viu o nascimento de um bebê, despediu-se e se entristeceu nas idas e vindas de pessoas queridas. Derrubou as pessoas, inúmeras vezes, simplesmente por conta da sua alegria em vê-las; fez xixi de felicidade em ver humanos em tantas outras tantas ocasiões; rasgou roupas e comeu o lanche de visitas, fuçou o lixo e roeu fios; abocanhou um sapo ao confundi-lo com um brinquedo, tentou pular de um carro em movimento e nos fez correr atrás de você diversas vezes na rua.
Foi você, quem nos trouxe uma alegria sem tamanho, quem nos fez rir por tanta coisa e era você, que no meio de todo mundo, percebia a minha tristeza e dor sem nem entender minhas palavras além de “comer”, “passear” e “brincar”. Na minha dura transição da adolescência para a fase adulta, você foi, definitivamente, o meu melhor amigo, que vinha dormir comigo porque, de alguma forma, entendia o quão doente eu estava.
Confesso que a cada dia tem sido mais fácil, porém mais angustiante e saudosa acordar sem a sua recepção, mesmo aquela tranquila, só com o seu olharzinho mau humorado. Como eu queria voltar a levar patadas a cada cinco segundos enquanto eu como. Como eu gostaria de sair para passear com você ou pra comprar mais uma bolinha. E, claro, sinto falta de dividir o quarto de novo com você e sentir aquele seu cheirinho de Cheetos. Arrisco a dizer que estaria disposta a sentir aquelas suas flatulências fedidas — e olha que, muitas vezes, eu precisava até sair do quarto e abrir as janelas porque a coisa era feia.
Em outros tempos, talvez eu até me envergonharia de escrever uma declaração de amor pública dessas para um cachorro. Mas, a verdade é que eu me sinto honrada em ter dividido a vida com você e me orgulho de ter me tornado essa pessoa aberta a tentar aprender e retribuir o amor incondicional canino.
Para finalizar, porque sei que você já está cansado de ler e já está latindo pra sair, deixo aqui um trecho da referência do livro que deu o título a esse texto. Obrigada por ter me ensinado a tentar
viver cada dia com alegria e exuberância desenfreadas, aproveitar cada momento e [a] seguir o que diz o coração. […] A apreciar coisas simples — um passeio pelo bosque, […] uma soneca sob o sol de inverno.
E enquanto [você] envelhecia e adoecia, me ensinou a manter o otimismo diante da adversidade. Principalmente, me ensinou sobre a amizade e o altruísmo e, acima de tudo, sobre a lealdade incondicional.
Obrigada por isso, Benny, e por todo o resto também. Apesar de, nós, humanos, não sermos tão bons quanto vocês, cachorros, prometo que tentarei levar adiante todos os seus ensinamentos.
Sempre mentalizarei bolinhas, banquetes, paninhos e passeios para você, seja hoje, que é o seu aniversário, e em todos os outros dias da minha vida… até o dia em que nos reencontrarmos.
Eu sei que você está nos esperando.

