A economia e a política certamente mudarão com Blockchain e eu te darei uma pista sobre isso

Moedas digitais, empresas descentralizadas, algoritmos de confiança. Se você está em 2017 e acompanha minimamente mídias sobre economia, inovação e/ou tecnologia, dificilmente não esbarrou por aí em algum desses temas. O que poucos dizem, é que essa tecnologia perpassa radicalmente questões meramente tecnológicas como moedas, computação distribuída ou web3.0.

Blockchain certamente mudará a forma como pensamos sobre economia, política e por fim, justiça.

Ok, mas o que é o tal do Blockchain, cara? Diz aí de uma forma simples que eu quero saber logo o porquê desse seu alarde.

Blockchain, do inglês “encadeamento de blocos”, é um conceito próximo de um grande banco de dados descentralizado, onde cada partição(bloco) representa e armazena dados de todas as naturezas(transações financeiras, contratos, mensagens, imagens e etc). Em outras palavras, temos como se fosse um grande caderno mundial, porém sem essas folhas estarem juntas. Cada folha além de guardar o tanto de informações que lhe for possível, guarda ainda um endereço de onde está a próxima folha da sequência do caderno. Exemplo: escrevo uma história de 2 páginas e guardo uma página para mim e outra deixo com você. Na minha página, que é a primeira na sequência da obra, adiciono o endereço da sua casa para que o leitor possa te procurar, caso necessite continuar lendo essa história. Dessa forma temos um armazenamento descentralizado. No caso do Blockchain, nossos computadores são as “pessoas” que guardam essas “páginas” que agora chamamos de blocos e ao invés do endereço da sua casa, utilizamos um endereço IP. Adicionamos ainda alguma complexidade computacional para garantirmos principalmente persistência, imutabilidade e segurança no armazenamento desses dados.

Sim Tássio, e como isso muda a história, a economia, a política, resolve a guerra na Síria e a zorra toda?

Vamos rápido mas sem pressa pequeno gafanhoto.

Não parece simples entender o conceito de blockchain de primeira mão, assim como anos atrás, também não era fácil entender a internet e, para a maioria das pessoas, continua não sendo fácil compreender os conceitos de computação em nuvem, rede, cliente-servidor, TCP/IP, IPV4/IPV6, etc. Porém, mesmo não entendendo nada sobre tecnologias de rede, a maioria das pessoas usam a internet a todo instante e nem se dão conta disso.

Eu acho que a internet vai ser uma das principais forças para reduzir o papel do governo. A única coisa que está faltando, mas que em breve será desenvolvida, é um e-cash confiável. - Milton Friedman ‘1999’

Blockchain foi a tecnologia que tornou possível, por exemplo, o Bitcoin, a criptomoeda mais utilizada no mundo. Sim, criptoMOEDA. Lembra quando te falei que poderíamos guardar qualquer tipo de dados nesses blocos? Pois bem, por volta de 2008 uma pessoa que até hoje não sabemos quem, usando o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, publicou um artigo entitulado Bitcoin “A Peer-to-Peer Electronic Cash System”. O documento introduziu uma solução para dois problemas enigmáticos.

O primeiro foi a nossa incapacidade de transferir dinheiro digitalmente entre participantes sem a necessidade de terceiros confiáveis(bancos, bandeiras de cartão e etc). O segundo, era criar uma função arbitrária que controlaria esse sistema monetário, evitando que pessoas fraudassem o dinheiro ou cancelassem transações.

E então ele propôs as seguintes e “simples” soluções:

1. Uma moeda 100% digital capaz de manter seu valor sem uma autoridade central. Pense abstratamente que existe uma determinada estrutura de dados que transita de máquina à máquina e assumimos agora que ela têm um determinado valor monetário, sem necessidades de ter por exemplo um banco auditando a saída desse dinheiro ou cartões de crédito movimentando transações entre as partes digitais. Pense por fim que temos agora “cédulas” de dinheiro circulando pela Internet, uma economia própria e autossuficiente.

2. Um livro digital descentralizado capaz de estabelecer a ordem das transações. E aqui de fato nasce o Blockchain.

Enquanto que o Bitcoin é apenas uma moeda que opera fundamentada no conceito de blockchain, o segundo termo é muito mais complexo e extenso e isso recentemente começou a ser percebido pelo mercado, o que óbviamente gerou e ainda gera enxurradas de investimentos em prol de café e programadores para lançarem diariamente criptomoedas, aplicações e negócios baseados nesse novo paradigma. Mas é sobre uma aplicação em especial que venho chamar atenção.

Ethereum

Em 2013, um russo danado, de posse então dos seus 19 anos e da sua enorme crença que Blockchain’s poderiam ser usados para muitas outras aplicações além de transferência monetárias, lançou um documento propondo a sua própria plataforma de blocos. A grande diferença(revolução) nesta nova plataforma estava na perspectiva de que além de dados, poderíamos armazenar e executar “contratos inteligentes”.

Como assim contratos inteligentes, rapazinho?

Um contrato, no sentido amplo do termo, pode ser definido como a formalização de uma relação entre duas mentes, compreendendo um conjunto de ações circunstanciais que na prática valem como promessas a serem cumpridas, de comum acordo, pelas partes envolvidas. Logo, pense que todo e qualquer acordo contratual, poderia agora ser transformado em um algoritmo e que agora este mesmo contrato seria executado de maneira descentralizada, confiável, automatizada e segura o bastante para que creditássemos CONFIANÇA aos acordos digitais.

A que nível você fala essa confiança e até onde posso ir com esses contratos?

Estou falando de contratos que circulam, são executados e garantidos por milhares de computadores simultaneamente, logo temos total confiança na entidade que executa esta função. Agora pare para pensar. Enumere tudo que você credita ou pelo menos deveria creditar confiança na sua vida. Bancos, corretoras de saúde e seguro, fóruns jurídicos, tabelionatos, secretárias, transportadoras, cartões de crédito.. governos. Todas essas entidades e milhares outras delas operam numa cadeia “centralizada” de confiança. Pense agora por exemplo num cartório em que a única função é de registrar documentos do seu casamento. Este cartório tem um custo para manter a sua estrutura física de pessoal e processos e sua única função no exemplo será registrar a sua entrada no processo de casamento. Então você se casa no cartório, paga taxas, espera dias e num determinado dia aleatório na rua, uma pessoa te pede que comprove que você é casado e você exibe o tal documento recentemente emitido. Essa pessoa prontamente acredita na veracidade desse documento, visto que vindo de um cartório ele atribui uma confiabilidade àquele papel, dada a organização que o expediu.

Mas, precisamos especificamente de um cartório ou de algo que nos conceda confiabilidade sobre um processo, documento ou ação?

E se este cartório fosse construído em Blockchains? Instantâneos, com custo zero e que todos confiam? Onde documentos são armazenados e nele ainda são executados contratos inteligentes que garantem especificações sobre os participantes do documento, clausulas de rescisão, operações financeiras a serem realizadas numa certa periodicidade, por exemplo.

Pensemos num outro caso. Pagamentos de obras em licitações públicas. Para nós brasileiros, nem preciso me estender em dizer o quão problemático isso é. Agora pense num desses contratos sendo executados via Blockchain. O contrato poderia executar condições por exemplo de como este pagamento seriam deliberados mediante entrega do projeto e confirmações de X mestres de obras do governo, as condições que poderiam acarretar em acréscimo no orçamento inicial, gerir votações para tomadas de decisões internas do projeto e o melhor: todo o dinheiro sendo rastreável.

Pense agora nessa linha aplicada à saúde, educação, sociedades empresariais, acordos contratuais de todas as naturezas, além dos novos mercados que certamente irão surgir, com a consequência de tantos outros que também deixariam de existir.

Assim como foram nos anos pré-internet, estamos na “marola” de uma onda de proporções onde não conseguimos estimar até onde podemos chegar. A transição é lenta, principalmente pelo fato do paradigma ser agressivo às várias sistemáticas na nossa sociedade. Porém, as primeiras aplicações já começam a surgir e o mercado obviamente sentiu isso. Em primeiro de Janeiro deste ano, o valor que se transitava equivalente a dólares em moedas virtuais e em contratos, eram de pouco mais de 18 bilhões de dólares. E neste exato momento que vos escrevo estamos em incríveis 112 bilhões de dólares circulando em formato de moedas digitais! O que estou dizendo é que pessoas estão vendendo dinheiro “tradicional” e comprando dados. Parece louco, né? Mas acompanha a lista final do que vem rolando pelo mundo e acompanha por aqui em breve muito mais sobre Ethereum, tecnologia, mercados e inovações.

Empresa permite compartilhamente de energia, utilizando contratos Ethereum: https://blog.slock.it/blockchain-energy-p2p-sharing-project-share-charge-going-into-live-beta-ad4e069e79d?gi=9a737b7548c8

Japão é o primeiro país a aceitar o Bitcoin como moeda: https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/06/03/febre-do-ouro-digital-no-japao-faz-valor-do-bitcoin-disparar.htm

Vladimir Putin se interessa nas aplicações com Ethereum: http://www.coindesk.com/vladimir-putin-vitalik-buterin-discuss-ethereum-opportunities-recent-forum/

Lista de aplicações Ethereum: https://dapps.ethercasts.com/

Dados financeiros do mercado de criptomoedas: https://coinmarketcap.com/charts/