CONTO: O PRESENTE

Por T. A. Batista

O angustiante som do aparelho respiratório era como uma tortura para Cibelle. O céu lá fora ainda continuava tão escuro quanto nos últimos dois meses; Desde que o estranho clima que começou a envolver Minas Gerais no início de Setembro daquele soturno ano de 2007 havia piorado ainda mais. As chuvas torrenciais tornaram-se rotineiras e os poucos raios de sol que conseguiam penetrar as nuvens apenas eram vistos nas primeiras horas da alvorada: o único marco do dia em que as poucas pessoas, que ainda possuíam fé em alguma coisa, agarravam-se ao resquício de esperança que restava em seus corações… Não seria nada fácil esquecer as sombras de Setembro, os agouros de Outubro e principalmente as chuvas de Novembro.

Para Cibelle, a situação era ainda pior. Já haviam se passado três meses desde o dia em que recebera a ligação, e o filho ainda estava completamente apagado naquela cama de hospital. O coma era profundo. Não fosse pela ajuda do irmão e da família do melhor amigo de seu primogênito, a mulher beirando os quarenta e cinco talvez não resistisse. Sua casa passou a ser o hospital, mesmo após todo um trabalho psicológico para tentar fazê-la retomar a rotina nas salas de aula. Porém, Pedro era tudo o que havia restado na vida da mulher de fios dourados; o seu maior tesouro que, milagrosamente, escapara do cruel acidente responsável por ceifar a vida do marido e de o outro filho gêmeo daquele.

Quando um sutil raio proveniente do atual tímido sol transpassou as persianas do quarto de hospital e beijou o olho esquerdo de Cibelle, sua cicatriz ficou em evidencia: um risco prateado que se estendia do topo da sobrancelha à ponta do queijo fino. Os olhos claros da professora então miraram no garoto enfermo.

Pedro tinha os traços do pai: olhos levemente amendoados que não viam a luz do dia há três meses. Tal descendência asiática estivera outrora esculpida no semblante do irmão gêmeo, e todas as vezes que Cibelle perscrutava o filho vivo ela não conseguia deixar de pensar naquele que perecera há três anos junto ao pai. Porém, tais memórias do acidente da qual sobrevivera junto ao filho à sua frente ultimamente se viam ofuscadas quase que completamente quando ela se lembrava daquele perturbador dia sombrio do último Setembro em que presenciou Pedro coberto de sangue. Os cortes no pescoço agora estavam cobertos pela gola de uma blusa de lã que a mulher havia trazido para o menino na noite anterior, entretanto todas as vezes que conseguia fechar os olhos e, quase que por milagre ser agraciada por algum sonho, a jovem mãe era sempre atormentada por aquela horrível lembrança do filho dando entrada numa sala de cirurgia, coberto de sangue e totalmente retalhado em vários pontos do corpo. Cibelle nunca conseguiu compreender o que havia acontecido ao filho naquela noite em que Pedro visitara o melhor amigo no próprio hospital em que agora, o garoto de apenas dezesseis anos, também se encontrava refém de um coma profundo.


Faltando apenas nove segundos para a meia-noite daquele mesmo dia, véspera de Natal, Cibelle abriu os olhos assim que um sopro gelado penetrou as persianas do quarto 405. O rosto dela minava um suor gelado, fruto de um novo pesadelo do qual acabara de escapar. Com um olhar vidrado, a mãe se voltou ao filho ainda imóvel sobre a cama. O chiado produzido pelo aparelho que o mantinha respirando era o único som do ambiente, que às vezes era quebrado por distantes burburinhos que vinham da rua, assim como pela sinfonia de todo o trânsito que cobria a região hospitalar da capital mineira.

De repente, ela testemunhou…

Pedro entrou pela porta vestindo o que parecia ser uma armadura antiga de um extinto samurai. Calmo e sereno, ele caminhou até se postar em frente à mãe, tomou a mão da pálida mulher e seus lábios finos começaram a se mover sutilmente:

— Espere só mais um pouco, Cibelle… Logo estarei ao seu lado de novo.

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