Como criar um pronome?

Talvez você esteja cansade de ter que escolher entre ele, ela, e o pronome que as pessoas em volta dizem que seria o “pronome neutro ideal”, seja ele elx, ile, elu ou éle. Talvez você simplesmente queira um pronome que signifique mais para você do que uma tentativa de sair do binário ou de fazer um pronome neutro. Talvez você queira escrever uma história aonde há uma sociedade que utiliza 5 conjuntos* padrão diferentes, e não queira simplesmente usar os neopronomes** mais comuns.

* Conjuntos aqui se referem aos conjuntos de artigo, pronome e final de palavra. Leia mais sobre isso aqui e aqui.

** Neopronomes são quaisquer pronomes que não são considerados parte da norma culta padrão da língua portuguesa. Isso inclui desde elx e elu até yn e élw.

Qualquer que seja o caso, você tem interesse em criar pronomes (pessoais, retos, da 3ª pessoa), ao invés de usar os que já existem.

Estas são as coisas que você precisa cuidar:

  1. O quanto seu pronome vai ser intuitivo? Como você vai fazer com que as pessoas entendam o pronome?

Você quer fazer um pronome que esteja muito longe de ele ou ela? Tudo bem, mas você precisa sinalizar que é aquele seu pronome de alguma forma.

Se uma pessoa coloca a/ela/a num perfil de rede social, sem contexto, talvez as pessoas não saibam que o primeiro a é o artigo e que o último a é o final de palavra, mas qualquer pessoa que esteja familiarizada com a necessidade de não assumir a linguagem alheia vai entender que a pessoa usa o pronome ela.

Mas e se a pessoa colocar i/iel/e sem contexto? É bem menos provável que entendam que iel é para ser um pronome. Nesse caso, talvez seja mais útil colocar no perfil “ume estudante brasileire. Pronome iel (usem isso ao invés de elx/ele/ela pra mim)”. Ainda que o artigo esteja omitido, há uma chance maior das pessoas entenderem o contexto.

Caso o pronome seja para você, e não para algume personagem, pode ser útil ter uma página explicando como usar seu conjunto. Só alguma coisa no Blogspot/Medium/Tumblr/Carrd/etc. que você possa linkar e ter frases de exemplo, como essas:

T é ume usuárie do Medium. Éli é arromântique e assexual. Éli usa o pronome éli, e não o pronome elu. O perfil déli no Medium é ttextos.

Pronomes geralmente são de 3 letras e possuem a letra L no meio. Mas a maioria das pessoas não está acostumada com qualquer pronome fora de ele ou ela (ou, ocasionalmente, de elx ou de el@), então é muito difícil que pessoas binárias entendam que algo é um pronome sem estar dentro de um contexto, ainda que seja um pronome mais perto do padrão, como ile ou élu.

Como regra geral, eu sugiro que quanto mais fora do padrão for o pronome, mais ele vai precisar de explicação. Porém, infelizmente, há pessoas para as quais nem todas as explicações possíveis adianta. E ainda estamos numa época aonde é normal e aceitável dizer que neopronomes são desnecessários, ou que quase todas as pessoas não-binárias deveriam desistir de seus pronomes e utilizar um neutro padrão escolhido pela maioria.

Não quero desencorajar ninguém de usar quais pronomes quiser e ter o direito de não se esforçar em ficar explicando, mas sei que a maioria das pessoas é pouco acostumada com neolinguagem em geral.

2. O seu pronome vai servir para leitura, escrita, ou ambas?

Por conta das normas de acentuação da língua portuguesa, éle não é um pronome que deveria existir: a maioria dos acentos diferenciais da língua portuguesa não existem mais, e tanto uma palavra com som de êle quanto de éle deveriam ser grafadas como ele.

É possível grafar o pronome como L, éli ou ély, mas a noção de ser um pronome “entre ele e ela” não fica tão explícita com essas grafias, ainda que dê para notar melhor pela pronunciação.

Êli e êly passam pela situação oposta: visualmente, é possível ver que são pronomes bem diferentes de ele e de ela, mas sonoramente, não podem ser diferenciados de ele.

Na anglosfera, algumas pessoas não-binárias estão começando a usar pronomes emojiself: ou seja, substituem seus pronomes por emojis, como 🌸 ou 🦊. Isso porque se sentem (mais) confortáveis com uma imagem do que com palavras. Mas todas as pessoas que já vi usando emojis como pronomes possuem alternativas textuais e entendem que nem todo mundo consegue usar esses pronomes.

Não há nada de errado se seus pronomes passam por percepções diferentes na fala e na escrita, mas é importante pensar nesse ponto se a sua intenção é que seu pronome seja utilizado na escrita ou na fala.

3. Seus pronomes pessoais funcionam em contrações e no pronome demonstrativo aqu___?

É importante não só pensar no pronome isoladamente (como em “ela é bonita”), mas também dentro de palavras que utilizam esse pronome.

Até onde consegui achar, essas palavras são d___ (dela, dele, dile, delx, etc.), n___ (nela, nele, nêlu, néli, etc.), aqu___ (aquelx, aquélu, aquíli, aquel), e derivadas destas (daquela, naquele, naquile, daquelx).

Considere estas frases, que utilizam o conjunto -/éli/e:

Aquéli moçe esqueceu o chapéu déli.

A imagem me fez pensar néli.

Agora, suponhamos que alguém queira usar o conjunto -/le/e:

Aqule moçe esqueceu o chapéu dle.

A imagem me fez pensar nle.

Talvez até ainda dê para considerar o pronome le pronunciável, mas ele já é mais difícil e truncado de usar, em comparação com o pronome éli.

Agora, vamos supôr que alguém queria fazer um conjunto bem distinguível, mas também fácil de lembrar, e assim baseou o seu em seu estado de origem, resultando em ba/hi/a:

Aquhi moça esqueceu o chapéu dhi.

A imagem me fez pensar nhi.

Enquanto o final de palavra a é bem comum, as palavras aquhi e dhi podem ser muito facilmente confundidas com aqui e de. A palavra nhi também podem acabar não sendo entendida muito bem.

Novamente, não há tanto problema em usar esses conjuntos na escrita, especialmente se for fácil de saber a qual conjunto as pessoas estão se referindo. Porém, é bem possível que alguém usando conjuntos mais difíceis (ou até impossíveis) de pronunciar precise ter algum conjunto auxiliar para ser usado por voz.

Também pode ser bom lembrar que pessoas cegas ou que enxergam mal utilizam leitores de tela. Enquanto é certamente uma falha que certas palavras comuns sejam mal pronunciadas simplesmente porque não são da norma padrão (todxs é só “tods”, não “todcss”), é importante ter uma noção de como certas palavras podem ser traduzidas para a língua oral, e considerar ao menos ter um conjunto que pode ser utilizado oralmente.

Acho que é isso. Boa criação!