Em defesa de uma multiplicidade de pronomes

(E de conjuntos de linguagem, em geral.)

Navegando pela anglosfera não-binária - ou ao menos pela parte inclusiva dela - eu encontro grupos onde pessoas utilizam, em sua maioria, conjuntos de linguagem diferentes umas das outras. Algumas pessoas preferem o neutro “padrão” they/them, outras preferem neopronomes mais clássicos como ze/hir ou ey/em, outras preferem radicalizar ou simplesmente se sentem mais confortáveis com pronomes derivados de substantivos (nounself), como voi/void (derivados de void, vácuo), fae/faer (derivados de fae, ser mágico/relacionado a fadas), ou kit/kits (derivados de kitten, gatinhe).

Há também diversos blogs onde é possível encontrar dezenas ou até centenas de sugestões de conjuntos, alguns baseados em alternativas mais neutras para ele ou ela, outros baseados em qualquer coisa que você possa imaginar, desde lugares até personagens de desenhos animados até elementos da natureza.

Obviamente, há muitas pessoas que são contra esse tipo de pronome. Algumas acusam sues usuáries de estarem fazendo com que ser trans seja motivo de piada (como se pessoas cis já não usassem desculpas para isso), outras reclamam que é muito difícil lembrar de usar esses conjuntos (como se não fosse a mesma coisa do que lembrar de nomes), outras reclamam que são pouco intuitivos (como se sues usuáries não colocassem em diversos lugares guias de como usar seus pronomes). Ainda assim, várias partes da comunidade já entendem e aceitam que não há nada de mais em ter que checar o perfil de alguém e ver que conjunto a pessoa usa, além de se acostumarem com trocar pronomes mais consagrados por outros mais novos. Já teriam que checar que pronomes as pessoas usam de qualquer forma, porque mesmo entre pessoas binárias, pronomes diferentes são utilizados.

Enquanto isso, na lusosfera, as discussões em relação a isso são ainda mais atrasadas. Sim, atrasadas, porque não considero limitações como algo progressivo.

Pessoas não-binárias em sua maioria utilizam ele e/ou ela, mesmo que não usem seus equivalentes em outras línguas. Muita gente não sabe a diferença entre artigo (a palavra que vem antes de um substantivo para marcar certas características, como o a de a maçã) e pronome (aquilo que está substituindo ou acompanhando um substantivo, como quando preferimos usar “ela comprou uma maçã” ao invés de “Mônica comprou uma maçã”). As pessoas ainda não veem que dizer “pronomes masculinos” ou “pronomes femininos” age como se pessoas não-binárias que usam ele ou ela estivessem só “pegando emprestado” tais pronomes. As poucas pessoas que usam pronomes fora do binário tendem a usar el@ ou elx, que são as únicas alternativas às quais foram expostas fora de comunidades não-binárias, mas que são frequentemente alvos de chacota por supostamente serem impronunciáveis.

Ah é, também tem isso. Vários dos artigos ou vídeos que vejo que tentam ~falar sobre linguagem neutra~ nem tentam oferecer soluções concretas. Só reclamam que el@ e elx são inviáveis por serem pronunciadas de forma errada por leitores de tela (se é que não descontam tais pronomes antes mesmo de considerar leitores de tela porque “não conseguem ler essa porcaria”), que elu é uma ideia ruim porque o pronome teria que ser acompanhado do final de palavra u, que teria o mesmo som do o (note que quase todas as pessoas que conheço que usam elu usam final de palavra e, e que pessoas com o pronome ele geralmente usam o final de palavra o), que outras alternativas são ridículas ou não parecem parte da língua, etc.

E aí tem a pressão para que a comunidade não-binária simplesmente se una e escolha um pronome só. Que também tem que ser um pronome neutro, utilizável para grupos mistos e para pessoas cujo pronome não sabemos ainda.

Tipo, pessoas binárias possuem todo o direito de terem linguagens distintas entre si, ainda que estejamos falando de apenas dois gêneros. Mas pessoas não-binárias, cujos gêneros podem ser formados de centenas de jeitos diferentes? Nah, nossa linguagem tem que ser “coringa”, tem que facilitar, tem que ser uma para todo mundo. E foda-se se alguém se sentir mal representade, se alguém sentir que prefere ter algo tão único quanto seu gênero, se alguém sentir que a alternativa neutra escolhida parece mais derivada de ele/o do que de ela/a.

Se aprendemos dois conjuntos de linguagem totalmente distintos, por que é só possível aprender mais um? Existem centenas de empregos, centenas de nomes, centenas de línguas, centenas de pokémons, centenas de jogos, centenas de artistas, centenas de programas de computador. Somos sim capazes de aprender a como substituir um conjunto de linguagem por outro. Se sabemos transformar a frase “ele sabe que um artista precisa estudar para ser bem-sucedido” em “ela sabe que uma artista precisa estudar para ser bem-sucedida”, podemos também usar “ile sabe que ume artista precisa estudar para ser bem-sucedide” ou “ély sabe que umy artista precisa estudar para ser bem-sucedidy”.

Ah, mas e a linguagem neutra? Que daria pra usar para qualquer pessoa?

Concordo que isso seria útil, mas sei que, ao menos no momento, não existe nenhum padrão. Quer usar -/el/- (“el, artista, quer ser bem-sucedid”)? Ê/elu/e (“elu, ê artista, quer ser bem-sucedide”)? -/ile/e (“ile, artista, quer ser bem-sucedide”)? I/éli/i (“éli, i artista, quer ser bem-sucedidi”)? Atualmente, desde que você seja mais ou menos consistente, não há problema em escolher, desde que respeite as linguagens de quem possui alguma linguagem específica para si, seja a/ela/a, o/ele/o, o/ele/e, -/élu/e, -/elx/x ou qualquer outra.

Por conta de palavras como aqu[pronome], n[pronome] e d[pronome], certas combinações acabam não sendo muito práticas. Acabamos limitando nossos pronomes a palavras de poucas letras, que começam com vogais. O pouco entendimento da população sobre o que é um pronome também faz com que geralmente os simplifiquemos utilizando o modelo AlB, onde A é uma vogal (quase sempre e ou i) e B é geralmente uma vogal, mas ocasionalmente é uma consoante ou não existe; e, nesses dois últimos casos, A geralmente é a vogal e. Tudo isso para que consigam perceber que el, eld, ile, éli, elu, entre outras palavras, são substitutos para ele ou ela.

E, mesmo que façamos tudo isso, não adianta. Continuam nos maldenominando, continuam exigindo de nós que simplifiquemos nossas linguagens (assim como geralmente querem que simplifiquemos nossos gêneros). Ignoram sinais óbvios de que não usamos a/ela/a ou o/ele/o, porque só consideram essas linguagens válidas.

Mas acredito que, no fim das contas, é melhor que continuemos com nossa pluralidade. Que continuemos exigindo o reconhecimento de nossas linguagens. Que continuemos nos esforçando para podermos respeitar a linguagem alheia, assim como queremos que respeitem a nossa.

A sociedade cis já vai nos incomodar de qualquer maneira, então que ao menos não precisemos nos limitar entre nós mesmes. Sempre quis usar a/ila/a, o/ele/e, e/eln/e, y/yn/y, ae/elae/ae, i/ili/i, -/anj/el? Seja feliz, e aproveite os poucos espaços aonde você será bem-vinde.