Rua número zero
Levantou da cama e no caminho até o banheiro maquinou mil decisões a serem tomadas no dia. Se olhou no espelho enquanto tentava em vão se lembrar qual era a sua escova de dentes. Aquela não era a sua casa e também não se lembrava da última vez em que se sentira num lugar que pudesse chamar de lar.
— O aconchego é muito mais do que uma cama quente.
O retrato refletido olhava de volta e procurava nos cantos mais fundos do sujeito qualquer sugestão de humanidade. Ficar ali olhando o vidro dava uma sensação de desequilíbrio maior do que encarar o limite de qualquer penhasco.
— A gente nunca se acostuma com o abismo nos olhando de volta.
O primeiro passo pela porta não fazia muita diferença. Tanto fazia estar dentro ou fora. Todo ambiente era o mesmo e não era nenhum. As pessoas passavam como se não estivessem ali e ele mesmo parecia não estar. Ele também não sabia onde estava.
— Onde é aqui?
Apesar de não reconhecer o lugar, já estivera ali muitas vezes e ainda estaria outras muitas, muito mais do que gostaria. Era o velho abrigo dos desabrigados, onde todos sentam e contemplam a rua vazia com os cães chorando pra lua um canto sem desejo.
— Me acorda quando o próximo trem chegar.
