Saideira
— Vamos tomar mais uma?
— Acho que já to afim de ir pra casa.
— A noite tá só começando, poxa.
— Essa noite nem começou pra mim, como muitas das últimas noites.
— E nem o álcool tem te ajudado a passar pelo branco das noites?
— O álcool só anestesia a dor. Eu não sinto nada.
— Não é a primeira vez que eu escuto isso.
— Nem é a primeira vez que não se assustam com isso.
— Deve ser uma coisa da geração.
— Eu não me atreveria a explicar o que é. Não entendo muitas coisas mais simples que isso.
— Não importa o quanto eu tente evitar, sempre me deparo com gente encarando esse vazio.
— E você nunca se deparou com ele?
— Tenho tentado evitar pensar nisso.
— E funciona?
— Acho que eu tenho um certo dom em viver as fantasias que eu crio.
— Meu talento é morrer nas minhas realidades.
— E quem é que tá mais feliz?
— Mas o quão real é essa sua felicidade?
— De que importa a realidade no final? Não acho que seja mais importante do que a felicidade.
— Quer dizer então que uma felicidade forjada é melhor que nenhuma felicidade?
— Não te parece óbvio?
— Não sei.
— Você acha que vai conseguir evitar essas perguntas pra sempre? Não acha que elas vão explodir todas de uma vez alguma hora?
— Quando elas explodirem eu penso nisso.
— E se for tarde demais pra tomar alguma atitude?
— Aí terá sido tarde demais…
