O texto que eu nunca quis escrever.
The sound of your voice painted on my memories, even if you’re not with me, I’m with you.

Eu não lembro o que almocei há 3 dias mas eu lembro exatamente do dia em que eu - realmente — conheci o Linkin Park.
Era 2003, eu tinha 11 anos e estava de visita na casa de amigos da família. O dono da casa tinha acabado de comprar o Live in Texas. Lembro de ter ficado brava porque estava assistindo a um clipe da Britney na hora e eu achava rock muito barulhento. Aqueles gritos. Qual a necessidade disso?
A raiva passou nos primeiros minutos, quando eu vi o Chester Bennington pela primeira vez.
Sei lá como que explica isso, mas lá estava eu: uma menininha de 11 anos, PERDIDAMENTE APAIXONADA, vidrada na frente da TV com um som tão alto a ponto de — literalmente quebrar algumas taças que estavam na sala. A porta de vidro vibrava, a cabeça até doía um pouco. Sair e entrar de novo era o mesmo choque de entrar num lugar com ar condicionado no meio do verão do Rio de Janeiro. O corpo inteiro sentia aquela melodia e, em especial, a voz do Chester.
Lembro de ter sonhado com ele aquela noite. Lembro que aquele DVD ficou no repeat durante todo o fim de semana.
Na viagem de volta pra casa, pedi pro meu pai comprar o mesmo pra mim.
Enquanto o DVD não chegava, eu comecei a acampar na frente da TV ligada na MTV esperando que em algum momento passasse um clipe do Linkin Park. Não tinha essa coisa de YouTube.
A MTV passava menos clipes do Linkin Park do que eu gostaria, mas enquanto eu esperava ansiosamente eu assisti a: Nirvana, Pearl Jam, Ramones. Conheci Led Zeppelin, Rolling Stones, Beatles. E gostei. Gostei pra caralho.
Clichê, sim, mas o Linkin Park abriu me as portas pro maravilhoso mundo do rock.
Chegou o dia em que eu ganhei o meu very own Live in Texas. CD e DVD juntos. Naquela época não tinha Spotify pra contabilizar quantas horas passamos ouvindo cada coisa mas, com certeza se tivesse, o Linkin Park ainda estaria liderando o meu ranking com sobra.
Eu decorei todos os momentos e os movimentos do DVD. Eu sei, até hoje, a ordem das músicas e tudo o que eles falam entre uma e outra no CD. Eu literalmente ouvia Linkin Park todas as horas em que estava acordada (depois de voltar da escola, onde eu catequizava todos os meus colegas sobre como o Linkin Park era maravilhoso e quanto o Chester era lindo).
Eu ligava o meu radinho azul com o CD que já morava lá dentro e deixava rolar no repeat. Aprendi a cantar, a prestar atenção nas letras, sentia tudo.
Vale dizer que eu nunca tive um quadro fodido de depressão, nem nunca sofri bullying pesado nem tenho algum grande trauma da época. Mas a adolescência é uma fase desgraçada e é difícil às vezes saber se realmente existe somewhere I belong.
A verdade é que a gente pega as músicas e entende da forma como melhor ela se encaixa no nosso momento. Muito provavelmente o que significou pra mim, não significou pra você e também é totalmente diferente do que o Chester sentia enquanto cantava.
Mas eu sentia também. Sentia muito. Chorei incontáveis vezes com From The Inside. Superei minha primeira paixão fracassada com With You. Descontei toda a minha raiva com One Step Closer. E por aí vai.
O Linkin Park passou a fazer parte da minha identidade. As pessoas lembravam de mim quando ouviam ou quando viam alguma notícia relacionada. 80% do meu Fotolog era composto de fotos da banda (desses 80, 95% eram fotos do Chester. Eu tinha uma pasta no computador só com fotos dele), 100% das legendas das fotos e dos meus nicks no MSN eram trechos de músicas do Linkin Park.
Em 2004, no auge da minha paixão/obsessão a banda veio fazer um show no Brasil e que eu não pude ir. Talvez tenha sido o dia que eu mais chorei ouvindo o Live in Texas no meu radinho azul.
Por volta de 2005/2006 a banda anunciou um hiato e foi o tempo em que eu comecei a conhecer outras coisas, outras bandas outros estilos. Tive a mesma experiência de amor à primeira vista com o Arctic Monkeys, que se tornou o meu Linkin Park da vida adulta.
O Linkin Park foi perdendo espaço no meu radinho azul, — que agora rodava diferentes CDs gravados no Nero - mas nunca perdeu espaço no meu coração e na minha memória.
Corta pra 2012.
Mais um show no Brasil. Comprei o ingresso sem nem saber como ia conseguir pagar, mas valeu cada centavo. Queria ter conseguido chegar mais perto. Queria ter conseguido trocar um olhar sequer com aquele que foi uma grande paixão na minha vida por tanto tempo. Não consegui mas também não precisei. O poder daquela voz não é medido nem em decibéis, nem em distância.
Demorei algumas músicas até entender que eu realmente tava vivendo aquilo. Em With You eu finalmente desabei e chorei como nunca tinha chorado com o radinho.
Catarse.
Senti como se fosse mesmo o encerramento de um longo e lindo ciclo na minha vida. A Tuani de 12 anos tomou conta de mim e ela nunca foi tão feliz.
Agora tudo é silêncio.
Eu estava vivendo a minha vida, quando ao voltar pra minha mesa no trabalho, vi todo mundo olhando pra mim com uma cara angustiada. A notícia me atingiu como um soco no estômago e caí no choro como se estivesse perdendo um amigo. Um grande amigo. O meu melhor amigo por anos.
Eu não sei lidar com a morte. Nunca precisei lidar. Ainda não tive a experiência de perder alguém próximo. Talvez isso tenha feito doer ainda mais.
O suicídio sempre me chocou. Sempre me arrepia pensar o tamanho da dor de uma pessoa que consegue chegar a esse ponto e ir até o final. Muito se fala dos sinais, mas e quem está de longe? E quem nunca pôde estender a mão? Se eu pudesse, eu faria.
Depois do que aconteceu, eu já perdi a conta de quantas histórias eu li. Histórias de como o Chester ajudou muitas pessoas a passarem pela depressão, histórias de como o Linkin Park foi uma válvula de escape na adolescência. Não me senti mais sozinha e perdi a vergonha de estar chorando por alguém que não me conhecia.
Essa parte do texto já não faz mais sentido. Perdi a coesão como perdi o chão naquela quinta-feira. Dia do Amigo.
Só queria botar pra fora, porque eu ainda não consigo acreditar.
Só eu sei o que o Chester Bennington foi pra vida. Agora todo mundo sabe o que ele foi pra milhares de outras.
Eu sinto muito, Chester. Sinto muito que isso tenha sido demais pra você. Sinto muito que essa tenha sido a única forma de encontrar um pouco de paz.
Na música que faz, dolorosamente, mais sentido agora você deixou o recado: when you’re feelin empty, keep me in your memory and leave out all the rest.
A sua voz nunca vai deixar de ecoar dentro de mim, como naquele primeiro dia. As suas chamas são eternas. Você é eterno.
