Daquele lado do muro o tempo é outro, marcado tão somente pela aurora e pelo entardecer. ‘A cada dia basta seu próprio mal’, é a batida do coração kaiowá.

Crônica Kaiowá

Passei dois verões entre índios guarani-kaiowás no Mato Grosso do Sul. Eu era voluntário em uma missão cristã que, a despeito de todo preconceito (em alguns casos justificável), fazia uma belo trabalho de amparo à um povo que vive ilhado em um oceano de soja banhada de pesticidas. A pequena área demarcada era cortada por riachos quase secos, que escoavam o veneno da soja das infindáveis plantações que engoliram o interior do Brasil. A estupidez da monocultura é devastadora. A aldeia ilhada e contaminada evidentemente já não abriga quase nada de fauna, e a flora luta pra se manter contra tudo e todos. A cultura nativa escapa entre os vãos dos dedos pela influência branca e pela insustentabilidade do antigo modo de vida diante do isolamento territorial.

A aldeia ilhada e contaminada evidentemente já não abriga quase nada de fauna, e a flora luta pra se manter contra tudo e todos.
A televisão essa lareira, queimando o dia inteiro a raiz que vive em mim

No primeiro verão a energia elétrica ainda não chegara e se podia ouvir o silêncio dos campos. No verão seguinte (dois anos depois) a televisão e o rádio já espalhavam a cultura branca, as músicas, as propagandas despejando desejos de consumo e de meios de vida distintos e inacessíveis. Inacessíveis na sua totalidade, evidentemente, mas não nas tentativas. O comércio entra na aldeia, os nativos contraem dívidas e são cooptados para trabalhos não remunerados para pagá-las. Há os ônibus de colheita de cana que passam e levam os homens para os canaviais ao norte. Um disparo de foguete é o aviso. Ninguém faz as malas. Não há nada para carregar. Pegam no máximo um chapéu e uma camisa, se despedem da família com um aceno e saem pelos campos até os ônibus. Sobem e se vão. A colheita dura meses.

O povo da aldeia luta para manter sua identidade, mas não é uma luta fácil. Os jovens perderam o interesse em si, em suas raízes, mas são desprezados pela cultura que se apresenta a eles como canto de sereia. Andar ali, no entanto, ainda é transportar-se a outro mundo.

Um muro enorme e absolutamente intransponível, no curto período de que dispúnhamos, mantinha-se rijo e imponente em nosso caminho.

Quando cruzamos os limites da aldeia no primeiro verão, superamos apenas o primeiro, e certamente o mais simples, dos obstáculos que teríamos que superar. Um muro enorme e absolutamente intransponível, no curto período de que dispúnhamos, mantinha-se rijo e imponente em nosso caminho. Não um muro simples e plano, mas uma intrincada parede infestada de relevos e formas estranhas como um labirinto vertical.

Abandonamos a neurose de produção, a loucura dos prazos e a inebriante ansiedade dos resultados e nos espatifamos em uma parede que erguia-se como largo muro de arrimo a conter todo o peso da insanidade que construímos.

Do lado de lá, dentro da aldeia, onde imagens de pobreza, sofrimento e miséria nos queimavam a retina, onde álcool, violência e drogas corroíam famílias como ferrugem, destruíam um povo como câncer, onde o forte oprimia cruelmente o fraco devorando-o vivo como gafanhoto, descortinava-se também um inimaginável outro mundo. Um mundo onde é permitido a todos e a qualquer um, em qualquer momento, sentar à sombra de uma mangueira, com uma cuia de mate na mão, e conversar. Onde cada frase é precedida de longos momentos de respeitoso silêncio e contemplação, e os compromissos não são como pesadas cargas lançadas sobre o lombo de infelizes prisioneiros do tempo, do relógio, de incontáveis responsabilidades. Não, daquele lado do muro o tempo é outro, marcado tão somente pela aurora e pelo entardecer. E os compromissos são subordinados ao momento. Lá, o que se vive tem maior valor do que o que se irá viver. O hoje tem maior valor que o amanhã. ‘A cada dia basta seu próprio mal’, é a batida do coração kaiowá. Batida semelhante à do mestre — ‘não andem ansiosos com o dia de amanhã’.

Olhe os pássaros, veja os lírios do campo, aprenda com Kuerai E’pa ao pé da mangueira.

Quando olhei no relógio e disse à Kuerai E’pa* que precisava ir; quando deixei-o com sua cuia à sombra da mangueira e parti rumo ao meu compromisso; quando olhei para trás e o vi já pequeno, sentado na mesma posição, sozinho, sorvendo o mate e olhando o céu; quando percebi que ele permaneceria ali, desfrutando o instante, contemplando a criação de Nhandejara*, só então percebi como deveria parecer-lhe estranho. Naquele instante me vi a partir de seus olhos e considerei-me louco. Então, enquanto caminhava apressado, ouvi uma voz suave sussurrando em mim: olhe os pássaros, veja os lírios do campo, aprenda com Kuerai E’pa ao pé da mangueira. Ao som dessa voz quase inaudível olhei de novo para trás procurando-o, mas já o tinha perdido de vista. Voltei-me novamente adiante, fitando o relógio. Sabia que não poderia voltar atrás. Tinha um compromisso e estava atrasado. Precisava correr.


A árvore, antes frondosa, agora símbolo do grito de dor de um povo

É difícil compreender o modo de vida do índio. Mesmo o índio semi urbanizado do Mato Grosso do Sul. Imagino que seja fácil condená-los por não assumirem o modo de vida de produção e consumo, de toma lá da cá, de mérito e demérito. Para mim, no entanto, foi fácil admirá-los quase ao ponto da inveja. Quando voltei para o sul, no final de janeiro, tinha em mim um vínculo que já não se desfaria facilmente. Guardei-os na memória, abracei-os em minhas orações, me envolvi à distância com alguns de seus problemas, sofri com as pressões que eles sofrem, com os tiros e a arrogância dos fazendeiros, com os que morreram, com os que se mataram. Uma grande, bela e viçosa árvore era nosso ponto de encontro na região do Cerro. À sua sombra juntávamos a criançada para organizar jogos, brincadeiras, contar e ouvir histórias. No ano seguinte um jovem de 14 anos enforcou-se num de seus vigorosos galhos. O desespero do não pertencimento, da falta de perspectiva diante do isolamento físico e psicológico imposto pelos brancos, o levou como leva à tantos todos os anos. A árvore foi derrubada pela aldeia em reverência à vida do menino. Quando voltamos lá já não havia mais sombra. O tronco seco da árvore era o grito de dor de um povo.

Uma grande e bela árvore era nosso ponto de encontro na região do Cerro. À sua sombra juntávamos a criançada para organizar jogos, brincadeiras, contar e ouvir histórias. No ano seguinte um menino de 14 anos enforcou-se num de seus vigorosos galhos.

A volta à aldeia, dois anos depois, foi recheada de emoções. Havia rostos a rever, abraços saudosos a trocar, muita história para ouvir — incluindo o triste relato da árvore no Cerro. Foram dias riquíssimos, e dessa vez meus filhos estavam lá. Sete e nove anos, correndo com a criançada, se embolando no capim, perseguindo galinhas, cantando e ouvindo histórias, repartindo a vida com respeito, com admiração, com fraternidade, como uma gente só, um povo só, uma humanidade só. Compartilhar essas experiências com eles é coisa que não tem preço. Mas o que não teve preço mesmo foi o derradeiro dia na aldeia.

O pôr do sol na aldeia

Preparávamos as malas para deixar a tribo depois de dez dias. Seria o último pôr do sol na aldeia. Agudos feixes de luz atravessavam o horizonte como lâminas douradas que, tendo ferido o céu, banhavam-no em púrpura lancinante e agulhavam agora meus olhos entreabertos, inebriadas pela visão do crepúsculo. O calor incrível do dia era agora empurrado para longe pela brisa macia que trazia consigo o veleiro da noite e todo seu frescor. Chegava sempre assim, deslizando suave sobre o horizonte amplo do cerrado e tocando minha pele como fria e leve seda que seduz um corpo fadigado e o levanta, renova, remoça.

Ha’eve Irû* havia dito que viria. Queria despedir-se. Quando nos falamos, alguns dias antes, encheu-me de alegria ao lembrar meu nome e referir-se a mim como amigo. Tinha-o em alta conta desde que nos conhecemos dois anos antes, apesar de termos convivido por pouco mais do que uma semana. Revê-lo, dias atrás, ainda que por poucos instantes, foi para mim motivo de acanhada euforia.

Aproximou-se lento e discreto, como todo índio.

Quando a noite já apontava discreta atrás do último horizonte e eu ainda esperava vê-lo uma última vez, surgiu do lado oposto ao sol, à contraluz, como que emergindo das sombras. Aproximou-se lento e discreto, como todo índio. Eles não são, como nós, chegados a euforias e desprendimentos. São em tudo circunspectos e reservados. Sorriu como sempre sorri, apertou-me a mão e, à meia-voz, disse ter me trazido um presente. Pediu-me que reunisse a família e um outro amigo, pois tinha algo a nos entregar.

Nos juntamos debaixo do teto de palha de um sombreiro, Ha’eve Irû à nossa frente, as últimas lâminas douradas do sol sendo engolidas pela sombra, e o ouvimos. Enquanto articulava tímido um breve discurso agradecendo nossa presença, empunhou o violão que trouxera a tiracolo e abriu um pequeno caderno escrito à mão. E ofereceu-nos seu inesperado e comovente presente — cantou para nós, em sua própria língua, um hino de gratidão a Nhandejara, o Deus Kaiowá, o Deus criador, que havia nos levado até ali, nos colocado frente a frente e misturado nossas vidas em rico e amoroso caldo humano e cultural.

A canção do amigo querido, no dialeto guarani-kaiowá

Na manhã seguinte pegamos a estrada com a alma sulcada pela marca aguda e pungente daqueles dias — especialmente da última noite e seu presente terno e eterno.


Kuerai e’pa. Paciência
Nhandejara. O Deus criador
Ha’eve Irû. Bom Amigo

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Artigo revisto e ampliado a partir de duas antigas postagens do blog
A Trilha.