A musa caiçara

Recentemente li que memórias não são fatos. Cada um registra o fato à sua maneira particular e única, fazendo com que várias pessoas, em contato com o mesmo fato, tenham suas próprias memórias.

Foi quando surgiu em minha memória um momento muito especial da minha infância: a primeira vez que tive a visão de um ser mágico da natureza, assim como uma fada, um elfo ou cada um dos espíritos que amam e protegem os elementos. Neste caso, vi surgir na minha frente, uma musa.

Para falar sobre ela, preciso descrever alguns de seus domínios, sendo um dos mais belos, o rio Perequeaçú (significa grande entrada de peixes ou grande praia, na língua Tupi). Sempre adorei passar horas no alto da pequena ponte que fica sobre esse rio, que desaguava na praia do Pontal, na bela cidade de Paraty.

Desde que minha lembrança alcança, eu ficava ali por horas olhando os meninos-peixe que pulavam da ponte em lindos saltos ornamentais. Também podia olhar para o mar, onde ali pertinho o rio já ia desaguar. Mas minha visão preferida era a do lado oposto ao mar: as majestosas montanhas onde o Perequeaçú, e muitos outros rios, nasciam.

Paraty tem uma atmosfera quase surreal, que sempre me remeteu a seres mágicos das florestas, cachoeiras e mares. Eu brincava sozinha com minha imaginação e criava mundos inteiros, que cabiam bem ali, no quintal dos meus avós. Mas confesso que as montanhas sempre foram um fascínio à parte de todo esse mundo encantado que minha infância criava. Por isso, naquela pequena ponte, sempre fiquei muito mais de costas para o mar e de frente para elas — as montanhas — como se eu realmente precisasse saber onde tudo tinha origem, inclusive o mar.

Em mais um fim de tarde sobre a ponte eu a vi pela primeira vez, e essa visão marcou a menina de tal forma, que a mulher nunca esqueceu. Eu estava olhando para o reflexo das montanhas no espelho das águas mansas do rio — a imagem formava um duplo fascinante. Foi quando ela surgiu ao longe. Era comum ver pessoas deslizando em suas canoas no rio, mas, mesmo ao longe, percebi que ela era especial. Seus cabelos compridos e negros criavam uma moldura especialmente bela para aquela pessoa que eu via descendo o rio lentamente. Graciosa como uma graça, seus movimentos eram tão delicados ao remar, que pareciam fazer a cena estar se passando em câmera lenta. Eu fixei meu olhar naquela imagem enigmática até que ela foi se aproximando. Nunca tinha visto uma mulher tão linda. Ela tinha uma expressão tão serena, que lhe conferia ainda mais magia. Ela não sorria, mas havia uma aura de felicidade e paz em torno dela, talvez por se saber tão natural quanto a própria natureza que a cercava.

Não lembro bem quanto tempo se passou. Ela seguia rumo ao mar e eu me perguntava: Será uma índia? Não. Ela é diferente… Muitos anos depois, me fiz a mesma pergunta. Então eu já sabia a resposta: Ela é caiçara. Ela é uma musa. Uma musa caiçara!

Passado muito tempo daquela tarde inesquecível, quis a vida que eu viesse morar em Paraty, e chegou o momento de conhecê-la pessoalmente — minha musa. Ela ainda tem aqueles cabelos sedosos emoldurando o mesmo rosto belo e majestoso. Ela se aproximou de mim enquanto eu olhava os barquinhos na ilha das cobras, distraída, pensando na vida. Nem sei bem como começamos a conversar. Eu fiquei meio paralisada e sem jeito, como a gente fica na presença dos ídolos. Pensamos mil coisas para dizer, mas não sai nada. Tive que quebrar o gelo, e a única forma pela qual consegui me expressar foi contando o quanto ela tinha feito parte do meu imaginário infantil. As montanhas, o rio-espelho, a canoa, o mar e ela, a musa — tão linda, que me fez ter certeza das coisas que antes só desconfiava: existem sim, seres mágicos andando entre nós. Maria Izabel é um deles!

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