Pior que a morte

Zia Medeiros
Feb 23, 2017 · 7 min read

Quando eu tinha nove anos, fui com minha família para a cidade onde meu pai foi criado. Pai, mãe, irmão mais velho e eu. Parecia mais uma vila, de tão pequetitinha. Eu achava tudo muito pitoresco, desde a igreja em frente à praça e a única rua principal até todas aquelas casas e vendas (bodegas, como eram conhecidas) com suas portas e janelas escancaradas. Nasci e cresci na cidade do Rio de Janeiro, onde isso era, digamos, raro.

À noite todo mundo sentava na calçada e conversava até tarde (dez horas da noite). Depois íamos dormir nas redes e eu achava esquisito, mas sempre adorei coisas diferentes e me acostumei rápido.

Os dias foram passando e, depois de conhecer quase toda a enorme família e ser recebida com festa em suas casas, percebi que tinha uma criançada que não acabava mais. Todo mundo estranhando “a carioca” e querendo brincar comigo ao mesmo tempo. Eu fiquei perto dos meus pais no início, mas logo já estava fazendo o que eu gostava mais: conhecendo gente. Chegava com alguma criança em uma das portas abertas e alguém já gritava:

— É a filha de Jodi (apelido de Jodival, meu pai)? Pois entre, venha comer “isso ou aquilo” (se não lembrava os nomes à época, agora, quase quarenta anos depois, é que não lembro mesmo).

E lá ia eu entrando, provando alguma coisa nova. Era sempre uma surpresa. Queijo derretido com açúcar (estranho e delicioso), ou uma tal fruta chamada embu, que eu detestei com todas as forças. Ardida demais.

Todos os dias tinha andanças com a criançada. Senti uma liberdade enorme por não ter hora pra voltar pra casa e poder continuar minha busca por conhecer mais pessoas e costumes. Ria por dentro dos sotaques e expressões nunca ouvidas. Perguntava tudo e de vez em quando escutava um comentário do tipo “ela é bonita”, “ela é perguntadeira” ou algo que eu não entendia e nem ligava.

Lá pelo terceiro dia começou a anoitecer e nós continuávamos perambulando em volta da praça. Finalmente caiu a noite e comecei a voltar pra casa. Se não fossem aquelas crianças eu ia demorar pra achá-la, mas não tanto, já que a cidade era minúscula e meu avô, Pedro Isabel (ou Isabé), um adorável vovô de quase um metro e noventa, era um conhecido e amado dono de “budega” (era assim que falavam).

Estava feliz da vida depois de um dia cheio de novidades quando escutei um som que contrastava com tudo que eu tinha ouvido naqueles dias: um burburinho choroso, uma cantilena triste e arrastada. Toda a iluminação da cidade era feita por lampiões e eu não estava mais enxergando bem dentro das casas. Mas logo achei uma delas com mais gente do que o normal na porta e a identifiquei como o lugar de onde vinha o som triste. Perguntei às crianças o que estava acontecendo ali e logo veio a resposta:

— É o velório de “fulano de fulano”(os nomes eram sempre assim: o nome da pessoa seguido do nome do pai, mãe, ou sei lá.Se fosse eu, ia ser Luzia de Jodi — apelido do meu pai).

Foi aí que tudo começou a virar a novidade mais triste que eu já tinha visto. Apesar de ter perdido um colega de escola quando eu tinha sete anos e ter feito questão de ir ao velório de Edmundo, com quem costumava brincar, minha mãe me manteve afastada do caixão, que, aliás, estava fechado devido à violência do acidente automobilístico que Edmundo, o pai e dois irmãos tinham sofrido. No mesmo acidente morreu, dias antes, Érica, irmã mais nova de Edmundo. Resumindo, a mãe deles estava de volta à capela para velar o segundo filho. Ela chegou gritando: EU ODEIO DEUS! EU ODEIO DEUS! Fiquei tão chocada que passei horas sem falar nada. Não lembro bem o que senti ou pensei, mas foi algo como “Poxa…que pecado. Mas Deus deve entender. Ela tem razão de estar com raiva. Dois filhos mortos…” Mas eu não imaginava que dois anos mais tarde veria algo ainda mais triste do que aquela mãe tão arrasada, gritando sua dor a plenos pulmões.

A verdade é que, aquele dia na capela do cemitério de Inhaúma, subúrbio do Rio, foi a primeira vez que fui tocada pela realidade da morte. A partida de Edmundo me chocou, mas eu ainda não sabia muito sobre a morte até entrar naquela casa escura e pobre do sertão da Paraíba. Eu estava prestes a conhecê-la bem de perto.

Como a cidade era mínima, não havia funerária e tinha-se que esperar vir o caixão de outro lugar. Enquanto este não chegava, o morto era velado na igreja, ou, se não fosse alguém importante na cidade, ficava em cima da mesa, onde, em casas pertinho dali, eu tinha feito meus experimentos gourmet durante vários dias. Pensei de cara “Nossa, na mesa onde comem?” Ora, onde ia ser? No chão? Logo descobri que era quase a mesma coisa. Fui entrando junto com a meninada, pois estava doida para ver de perto a tão falada morte. Entrei facilmente e ninguém parecia se importar muito com a presença de crianças. Foi então que decifrei aquele som abafado que tinha ouvido de longe: orações misturadas com choro e algumas músicas eventuais. Imagino que fossem hinos religiosos. “Segura na mão de Deus e vai.”

Eu era alta para uma menina de nove anos e quando cheguei à mesa foi fácil ver o que eu tanto queria: a morte. Pois ela se desnudou à minha frente como quem diz “Quer me conhecer, então me olha!” Só sei dizer que sua vítima era um homem. Reparei em algumas raras flores que rodeavam o corpo (encontradas não sei onde naquele sertão). Os trapos que ele vestia vim descobrir ser o seu melhor traje. Roupa de ir à missa, que já se sabia com quase certeza que viria a ser a mortalha. Jura? Pensei comigo. Essa é a melhor roupa? Como eu era ingênua…

O que veio a seguir nunca esqueci e jamais esquecerei. Tentei chegar ainda mais perto, apesar do cheiro estranho (morte) que se misturava ao das escassas flores e à fumaça das quatro velas, uma em cada canto da mesa como mandava o figurino.

Olhei primeiro para seu rosto e congelei, havia insetos em seus olhos e boca, mesmo tendo sido esta última muito mal estofada com o pouco algodão que conseguiram arranjar. Não sei dizer mais nada sobre seu rosto. Acho que parei de olhar porque me assustava, apesar de continuar curiosa. Sei que era novo, pois ouvia muitos comentários do tipo “Coitado, tão novo…” Mas, antes mesmo que eu pudesse tentar olhar melhor suas feições, vi um movimento na mesa, bem pertinho do meu braço, já que eu estava praticamente pendurada em cima do morto. Eram baratas. Muitas. Nesse momento eu paralisei. Então veio um pensamento que não pude evitar: “Eles devem ser muito pobres”. Acho que foi inevitável a comparação daquele velório com o de Edmundo, sem baratas. Nesse momento resolvi olhar em volta e percebi que a casa era praticamente miserável. Eles não tinham nada. Isso em comparação com as casas bem pobres que tinha visitado durante a viagem. Claro que tudo isso estava baseado nos meus padrões, ainda que suburbanos, de uma cidade como o Rio de Janeiro.

Voltei-me novamente ao morto. As baratas e outros insetos que não sei ou não lembro mais o nome, corriam por toda a mesa e por todo o corpo daquele pobre homem gelado em cima daquela mesa. Gelado sim. Eu não resisti ao impulso de, mesmo com muito medo das baratas, tocar a mão dele. Dela me lembro bem: morena, grossa, esquelética e…gelada. Aquele gelo percorreu meu braço e eu logo a larguei. Quanto horror a cena continha! Eu não podia me conformar com a naturalidade das pessoas. NINGUÉM estava dando a mínima para as baratas. Como pode uma coisa dessas? Afastei-me um pouco e meus olhos se voltaram então para seu torso. Era onde as baratas ficavam mais evidentes, devido ao contraste com a camisa branca toda puída. Eu estava em choque e não conseguia parar de olhar para aquela cena.

Lembro que chorei. A sala mal iluminada pelos lampiões ocultou minhas lágrimas que misturavam tristeza, indignação, nojo e, por fim, medo. Medo de que um dia fosse eu em algum lugar assim sombrio, com pessoas a chorar, rezar, mas sem ninguém para espantar as baratas do meu corpo. Descobri que ele tinha uma esposa ou algo que o valha, pois percebi uma moça que chorava mais que todos e chamou o moço de “meu amor”. Nesse ponto ele já tinha mais significado pra mim, portanto dei-lhe um chamamento melhor que “o morto”. Agora ele era “o moço”. Aí a coisa ficou pessoal. Eu olhava para a viúva e olhava para ele, brava, como quem diz: vai deixar seu “amor” cheio de baratas? Nesse momento minha mãe chegou me procurando. Já era tarde e eu tinha perdido a noção de tudo. Olhei aflita, mais uma vez, para ele. Eu ia ter que ir embora e deixar o corpo e as baratas em cima dele. Na verdade, eu tentei um último esforço:

— Mãe, tem baratas em cima dele — falei bem baixinho. Ela foi me puxando pelo braço e se despedindo das pessoas. Dei minha última olhada nele e aguardei a bronca da minha mãe. Para minha surpresa, ela não brigou. Só falou, também quase sussurrando:

— Fica quieta. Eles são muito pobres e depois de muito tempo esperando o caixão os bichos aparecem.

— Como assim? Por que não tinha bichos em volta do Edmundo? Esse moço morreu de quê? Por que estava em cima da mesa?

Eu tinha tantas perguntas, que minha mãe me parou na rua e começou a explicar:

— Você não conhece a vida. É muito criança pra ir a velórios. Não tinha nada que estar lá. Agora você sabe que nem todo mundo tem o mesmo jeito de ser velado e enterrado. — Encerrou o caso puxando meu braço mais uma vez.

Deitei na rede naquela noite e fiquei pensando no que minha mãe disse. Meu raciocínio de criança foi, na verdade, bem realista. Quando alguém é muito pobre, nem as portas de uma igreja vazia se abrem para seu corpo não ser infestado por baratas em cima da mesa do jantar. Foi meu despertar para as diferenças sociais, e não foi nada boa a sensação que veio com esse despertar. Pensei na mãe de Edmundo odiando Deus. Ela não sabe o quanto ainda poderia ter sido pior. Enfim veio o sono e eu apaguei de tanto ter brincado o dia todo e depois ter ficado esgotada emocionalmente.

Hoje, quando penso naquele dia, não consigo deixar de comparar com a história do livro A Metamorfose, de Kafka. O “moço” e provavelmente muitos dos moradores daquele sertão tão pobre iriam ser impedidos de ter a dignidade de um velório sem baratas, pois já eram vistos e tratados feito elas.

Zia Medeiros

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