O que acontece se você deixar de curtir no Facebook?

Quem me conhece sabe que sou uma entusiasta das redes sociais. Não apenas de redes sociais mas de tecnologia no geral. Bem, na verdade, sou uma entusiasta com a vida, mas isso é um outro assunto que não cabe neste artigo. O que me leva à curiosidade e experimentação nessas plataformas de relacionamento.

Como entusiasta, tenho uma certa visão romântica do papel das redes sociais em nossas vidas. Acredito que podemos (e devemos) conectar, compartilhar, curtir e comentar por um bem maior à humanidade. Podemos construir um mundo melhor e hoje temos inúmeras ferramentas para nos auxiliar. Um professor que também defende essa visão e que gosto muito é Clay Shirky.

Por isso, quando li o artigo da Elan Morgan no Medium I Quit Liking Things On Facebook for Two Weeks. Here’s How It Changed My View of Humanity resolvi eu mesma parar de curtir postagens no Facebook para ver o que aconteceria.

#Seguir ou não seguir

Eu já havia feito uma limpeza entre as fanpages que acompanhava. Uma porque se quisesse ver o que uma fanpage havia publicado, precisava ir até o endereço da mesma pois o algoritmo do Facebook não me entregava tudo. Duas porque quando colocava uma fanpage em uma lista de interesses, conseguia assim organizar as atualizações e visualizar melhor os assuntos. Assim, criei algumas listas de interesses e dediquei um tempo descurtindo fanpages.

Fato curioso, que por algum bug do facebook, descurtir exigiu certa dedicação. Algumas fanpages não apareciam como curtidas na listagem, mas permaneciam com a curtida marcada. E na listagem, até hoje, figura um número maior do que o real de fanpages curtidas. (já experimentei outros bugs do Facebook, como as cutucadas que zeram depois de 1200 interações, mas outra hora escrevo só sobre isso ;) )

Também lançava mão dos grupos de amigos, direcionando minhas publicações por públicos de interesse e melhorando minha experiência no Facebook. Melhorando a experiência? Sim, porque ao fazer a gestão dos grupos de contatos você direciona o que é profissional, pessoal, assuntos gerais e afins. Em uma sociedade onde cada vez mais a distância entre público e privado diminui, é importante ter consciência e cuidado com o que você publica.

Em 20 de agosto de 2014 eu parei de usar a opção de curtir do Facebook. Nenhuma postagem mais. Texto, link, vídeo, foto, compartilhamento, nada.

#Primeiras impressões

Na rotina automática de curtir como expressão de gostar, concordo, muito bem, é um desafio orientar os dedos para não responder ao impulso. O engraçado é que esse é um comportamento tipicamente virtual: curtir e favoritar. No mundo real, você precisa dedicar um pouco mais de si mesmo para expressar seu interesse em relação à determinada coisa. Elogiar sua mãe pela comida bem feita, parabenizar o filho pelo trabalho entregue, celebrar a realização de um amigo, comentar o novo corte de cabelo do namorado, etc. Em plataforma virtuais, mais especificamente no Facebook, reduzimos tudo isso à um simples ato de curtir. E nos limitamos aí. Não existe nenhuma conversa a partir disso. Indo além, com base nesse reducionismo é que o mesmo Facebook devolve conteúdos teoricamente interessantes para nós. Sem qualquer inteligência que diferencie cada uma das curtidas. Pois apesar da resposta sistêmica ser a mesma, existe uma intenção com peso e interesse específico para cada conteúdo curtido. Não é tudo a mesma coisa, mas para o algoritmo é sim ponto final.

#O que mudou

Minha primeira percepção — percepção sim pois não houve metodologia aplicada, indicador relacionado, monitoramento sistematizado — foi a de iniciar mais conversas na minha rede. Ao comentar uma nova foto de perfil ou um link compartilhado por um colega de trabalho, o autor do post se viu convidado a responder o comentário. De muitas conversas iniciadas, algumas tiveram desdobramentos interessantes (principalmente para os assuntos polêmicos) e outras garantiram a percepção do sentimento real do que gostei em determinada postagem.

Segundo, passei a receber mais postagens da minha rede de contatos ao invés (das poucas) fanpages que ainda acompanhava. E desses contatos, visualizo 90% mais postagens originais (mesmo que compartilhamentos, mas sempre com algum comentário) do que apenas notificações de que fulano curtiu tal página e/ou publicação. Ou seja, passei a receber conteúdo que potencialmente me interessava mais, as postagens dos meus amigos.

Mas dentre essas postagens, gradualmente também houve uma seleção. Atualizações de fotos de perfil e capa são raramente expostas. Mesmo quando chego a acessar (navegador e aplicativo) mais de uma vez por dia, correndo por uns 5 minutos pelos conteúdos, esse tipo de atualização não entra. Fui surpreendida muitas vezes por uma foto muito bacana que uma amiga próxima colocou no perfil apenas quando ela mesma publicou outra atualização, comentou alguma das minhas postagens ou começou uma conversa pelo Facebook Messenger.

Dos cerca de 500 contatos, recebo atualizações frequentes dos amigos mais próximos, novas conexões, pessoas com quem conversei recentemente pelo chat, mas principalmente daqueles com os quais eu estabeleci uma conversa através dos meus comentários nas postagens. Eventualmente aparece uma atualização de contatos com quem pouco me relaciono. Mas a oferta de atualizações hoje é muito mais variável do que há um ano atrás. Ou seja, se antes eu visualizava atualizações de 20% da minha rede, hoje esse número cresceu expressivamente para 50% — 60%. Em algum momento eu recebo uma atualização mesmo de quem nunca conversei (aquela pessoa que só adicionou porque estudou junto no colegial mas com quem nunca interagiu). Diversidade nas atualizações.

#Humanidade

Assim como Elan Morgan, percebi uma transformação na linha do tempo: mais humana e menos promoção automatizada de produtos e serviços. Mais postagens reais ao invés de sugestões feitas por robôs. Me aproximei de uma maneira mais real dos meus contatos e passei a expressar verdadeiramente (com mais comprometimento, talvez?) minhas impressões sobre determinadas atualizações.

Notas:

1. Ao reler o artigo da Elan antes de escrever o meu vi uma atualização de julho de 2015 onde ela diz que continuou no experimento, colhendo os mesmos resultados positivos.

2. E se você curtir tudo o que receber de atualização no Facebook? Leia sobre nesse artigo da Wired.

3. Originalmente publicado em marcelaleon.com