Concepção do asco

“Sei que somos G.H.; temos todos uma asquerosa barata interior. Uma barata até abraçável. Uma barata que nos traz de volta àquilo que realmente somos, àquilo que originalmente nos move. A barata somos nós. Nós somos baratas. Baratas oprimidas, escondidas por detrás da geladeira. Mas uma barata não é de todo nojenta, é aquilo que chutamos pra longe porque não aceitamos por perto, boa ou ruim. Chutamos porque a julgamos nojenta sem antes contemplá-la. Mas o nojento precisa ser contemplado para que se compreenda melhor o seu avesso.

E aí, quando nos deparamos com nossa barata, há caos. Há caos porque a barata nos olha de volta, e temos piedade dela enquanto ela se debate, tentando se recompor de nosso chute. No fundo, identificamo-nos com nosso avesso. Mas é difícil engolir que a barata nos seja. Fácil é fazer cara de indignação com o absurdo de termos um lado asqueroso. Um absurdo. Mas um absurdo verídico. E o asco faz parte do absurdo. Detestas víboras? És víbora. Odeias barata? A és. Só que por detrás da geladeira, despercebidamente — por si. Não percebes, mas provavelmente és percebido.

Pois percebas, antes que sejas abraçado pelo tempo e dominado pela ignorância, engolido por insetos repugnantes — engole tua aversão antes que sejas engolido. Põe pra fora a barata, contempla-a, abraça-a. Sê-a.

Minha barata tem olhos azuis, antenas loiras. Minha barata tem arrogância, desprezo, interesses segundos. É rude, e não se preocupa com os outros, não passa de uma nojenta se arrastando através do esforço alheio. Minha barata usa os outros pra conseguir o que quer. E eu não sou como ela. Sou-a do avesso? Mas o avesso me é. Odeio minha barata. Odeio, quero-a morta. Mas ela me olha de volta com seus olhos azuis. Não importa, não ligo pra olhos. Odeio-a, talvez não seja minha barata. Mas veja, ela não é de todo nojenta. Apesar de dada ao fútil, a infeliz é prática. Atirada. Ela é do tipo que tem asas e chega rápido. Pensa pouco, não tem rodeios. Felizmente, a barata me é. Infelizmente, do avesso. Por que a chutei pra detrás da geladeira? Porque ela tem coragem, mas sou-a ao oposto, oras. Mas me olha nos olhos, nojenta. Quero ser sua metade. A outra metade é barata demais, não merece apreço. Já a abracei. Basta-me saber que está ali. Devidamente chutada.”

Trecho extraído do conto Em Construção