O estranho caso dos fãs de Richard Ashcroft

Está na hora de sairmos do armário, galera

Richard Ashcrof no Teatro Gran Rex, Buenos Aires. Outubro 2016

Recentemente passei por uma das experiências mais aguardadas da minha vida: ver um show do Richard Ashcroft. Pra ser ainda melhor foram dois shows, um no Personal Fest e outro só ele no teatro Gran Rex, ambos em Buenos Aires. Confesso que ainda estou processando tudo isso.

Paixão antiga. Comecei a arranhar tocar violão com Lucky Man e me impressionava como fácil eram os acordes dela. Foi essa mesma canção que tocou na minha entrada no casamento. Ainda rolou um Bitter Sweet Symponhy na saída dos noivos. Fã? Será?

Desde 1997 quando o The Verve lançou o seu mais conhecido disco, Urban Hymns, venho escutando religiosamente suas canções disco após disco, seja da banda ou carreira solo incluindo B-sides e os álbuns mais antigos.

As letras do cara pra mim são simplesmente as melhores que o rock fez nos últimos anos. São melódicas, filosóficas, com um toquezinho de auto-ajuda às vezes (eu sei) mas principalmenente entendíveis e claras. Talvez até por isso seus temas acabam se repetindo um pouco, mas tô nem aí. Você canta e sabe exatamente o que o cara quer dizer com aquilo. Não tem charadas, palavras desnecessárias só pra rimar ou outras coisas misteriosas.

Como já dizia o Travis em Writing to reach you: “What´s a Wonderwall anyway?”

Desde 2008 quando o The Verve voltou, lançou o disco Forth, fez uma turnê foda na Europa e acabou outra vez, parecia que o Richard Ashcroft estava meio perdido, no ostracismo midiático musical. Lançou um disco fraquíssimo em 2010, United Nations of Sound (tanto é que não tocou nenhuma música dele nos shows), e nunca mais ouvimos falar. Seis anos depois, ele lança These People, um disco muito superior ao anterior, que lembra muito a fase noventista do The Verve, e saiu numa turnê pelo mundo. Foi aí que nos encontramos duas vezes em Buenos Aires.

Selfiezinha com o Richard.

Fui para o primeiro show no Personal Fest achando que estaria vazio, temendo até que fosse um mico. Nesses quase 20 anos de espera para ver o cara ao vivo eu só tinha conhecido um fã de verdade além de mim. Só sabia da existência de um cara que, como eu, dizia que o the Verve era a banda preferida da sua vida. Por coincidência esse mesmo cara começou uma banda comigo em 2003 com fortíssimas influências vervianas.

Grande engano. Chegando na hora do show uma plateia lotada gritando, cantando junto e se emocionando junto com o Richard. Dois dias depois, num teatro Gran Rex lotado isso foi ainda mais evidenciado. O clima era de total frenesi, tanto do público como do artista. Minutos antes do show começar uma menina que estava do meu lado não aguentou de emoção e vomitou no chão. Nunca tinha visto algo parecido.

Com as letras, músicas e sua postura, Richard Ashcroft parecia mais um profeta cantando para seus seguidores, um bando de fiéis que esperaram tanto tempo para vê-lo ali de perto. Nunca vi gente tão educada e sorridente, todo mundo se reconhecia no outro e via aquele entusiasmo de finalmente completar um grande objetivo na vida naquele show. Até mesmo quando a menina vomitou de emoção ninguém ficou bravo, apenas chamamos um guardinha e a equipe do teatro para limpar porque o cheiro estava foda.

Richard também parecia não acreditar no que via. Sério que eu consegui colocar 3300 pessoas num teatro? Como é que tanta gente aqui nesse país lá embaixo vem me ver mesmo eu estando tão longe da mídia? Zero personalidade de rockstar. Nada lembrava aquele cara que vai caminhando arrogante, sem desviar das pessoas, batendo e se chocando com quem aparece no caminho de Bitter Sweer Symphony. Vai ver é a maturidade e os 45 anos nas costas que gerou essa mudança. Conversou muito com a plateia, fez uma espécie de chamada para ver se todas as pessoas que ele tinha conhecido em Buenos Aires e convidado ao show estavam ali. Um senhor que trabalhava numa Parrilla, duas amigas atendentes de um café e uns outros. Todos estavam lá.

Olé Olé Olé. Richard, Richard.

Fãs do Richard Ashcroft, onde vocês estavam antes? Como é que nunca nenhum de vocês cruzou minha vida antes? Quantas conversas sobre letras e músicas eu já não perdi porque esses fãs não saíram do armário? Vamos nos assumir?

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