Você é um alienado, você assiste Malhação!

O que fazer agora que somos todos “politizados”?

Durante meu primeiro ano de faculdade na UFPR fui numa votação em que professores decidiriam se queriam fazer greve ou não. Isso foi no ano 2000, finzinho da era FHC. Como estudante eu morria de medo de greve e junto com outros amigos comemoramos quando o resultado da votação foi contra a paralisação. Depois dos nossos gritos um cidadão, que era a favor da greve, veio pra mim bradando “Você é um alienado. Você assiste Malhação!”.

Malhação!

A cena foi muito engraçada e anos depois ainda ríamos dela. Por que o cara escolheu aquela série? Eu tinha mesmo cara de fã do Claudio Heinrich? São mistérios que nunca saberei. Mas hoje vejo o quanto o sindicalista estava certo. Naquele assunto eu realmente era um alienado. Apenas não assistia Malhação.

Não tinha a mínima ideia de nada daquela votação de greve da UFPR, apenas fui como estudante defender o que eu queria: ter aulas. Cresci com a ideia de que educação pública era sinônimo de greve e não queria enfrentar uma logo no meu primeiro ano na faculdade. Mal sabia eu que no ano seguinte não conseguiria escapar, 2001 teve uma das principais greves do governo FHC com quase 4 meses de paralisação.

Estava completamente por fora do histórico de brigas, dos salários dos professores e da políticia educativa do governo FHC. Essa informação era dificílima de conseguir. Não tinha nada na imprensa sobre isso. Na internet eu precisaria esperar dar meia-noite para pesquisar qualquer coisa. O orçamento era pouco e gastar pulso telefônico no meio do dia era um luxo.

Ser politizado significava se esforçar muito para ter informações. Agora qualquer um tem informação e opinião, mas não sabemos o que fazer com elas.

Se fosse hoje certamente teria a meu dispor dezenas de textões no Face sobre a greve, correntes no grupo da família de whatsapp, gráficos mostrando a alta dos salários dos professores, memes com sindicalistas, memes com o então Ministro da Educação Paulo Renato, youtubers especialistas em tudo vomitando suas verdades, filósofos celebridade dando seus pitacos e por aí vai.

Sim, um mar de bosta de informação mas que me ajudaria a tomar um lado, muito mais pelas minhas próprias convicções e para afirmar o que sou, do que pelos fatos e dados de verdade.

Facebook

Entro no Facebook e leio declarações estapafúrdias de prefeitos, primeiras-damas, textões cheios de revolta sobre a situação dos refugiados, das eleições americanas, da PEC e sinceramente não sei como lidar com tanta notícia ruim.

O Brasil virou “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade” do Só Pra Contrariar. Sonhávamos com um país de pessoas politizadas, mas não temos a mínima ideia de como conviver quando o nosso desejo se realizou.

Mas será que estamos mesmo politizados? Ou apenas estamos mais confiantes em emitir nossa opinião só porque temos um público que nos aplaude?

Os preconceituosos e ignorantes se encontraram nas redes sociais. Só porque tem outros milhares de idiotas que concordam com suas ideias delirantes eles acham que estão certos. Pessoas que devem uma fortuna em condomínio e estão com nome sujo na praça emitem opinião sobre as finanças do país. Todo mundo se acha informado mas apenas repite o que lhes é dito para quem já concorda com isso.

Era tão melhor assistir Malhação, a galerinha no GigaByte e a Vagabanda.

Vagabanda!