Líquido e sólido: o que há de novo no mundo.

Zygmunt Bauman é um nome bastante popular na sociologia moderna. Atire a primeira pedra quem nunca ouviu uma menção ao seu conceito de “modernidade líquida”. Simplificando a obra de um grande pensador, o mundo, para Bauman, tem caminhado a um estágio em que as relações interpessoais se tornam preocupantemente líquidas. O que é líquido escorre entre os dedos, escapa ao toque, é difícil manter entre os braços. A realidade, mais do que nunca, se veste de uma roupagem mutável. O quanto do seu cotidiano é real? No choque da revolução tecnológica, adaptamo-nos a uma conexão “Online”, e talvez, segundo a percepção de Bauman, estejamos cada vez menos conectados com o que de fato interessa: o calor das relações sólidas. Bauman não apenas se refere à amizade ou aos fins de semana em família na praia, mas leva a reflexão sobre a modernidade líquida também às relações de trabalho e ao derretimento das instituições morais estabelecidas até aqui.

Embora seja pouco dito, minha primeira impressão ao ter contato com a obra do sociólogo polonês foi de se tratar de um crítico conservador. Alguns novamente irão buscar as pedras para me atirar, já que Bauman não é bem uma referência para os conservadores contemporâneos. Contudo, a ideia de apontar para a fragilização das instituições é o cerne do pensamento conservador, em especial no que diz respeito à família. No mundo líquido o planejamento de vida tende ao imediato, e a própria ideia de ter de lidar com uma rotina parece entediante. Torna-se cada vez mais difícil encontrar quem planeje ter filhos e criá-los como uma verdadeira forma de dar significado à aventura da vida.

Ao que parece as constatações de Bauman são um tanto quanto incontestáveis. Evocando o épico início de Senhor dos Anéis: o mundo mudou. Bauman acerta no diagnóstico, enxerga os motivos que levam os homens (sem distinção de gênero) a almejar uma vida líquida, sonhar com uma carreira flexível e buscar a máxima autonomia individual. Contudo, parece fatalista ao definir que esse processo é nocivo. Temeroso de cair numa espécie de determinismo, afirmo que estamos apenas completando um ciclo. O homem segue rumo às origens: quer ser livre do que o prenda a um solo, está cansado das fronteiras que criou. A globalização e a realidade virtual o tiram da mesmice do processo histórico. Já não existem Alexandres a conquistar territórios. Esgotando o espaço físico, decidimos superá-lo. Vivemos num tempo em que as grandes descobertas precisam de novas plataformas, ao mesmo tempo em que as grandes aventuras tornaram-se acessíveis a quem está preso a um apartamento ou a uma casa sem reboco.

O mundo líquido pode parecer perigoso, e é possível elucubrar finais trágicos para essa nova aventura humana, quem assistiu Black Mirror sabe do que estou falando. Mas é nessa nova realidade que os gritos de quem jamais fora ouvido ecoam por cabos de fibra ótica. A informação pode acabar por destruir o homem, mas desejar limitá-la para evitar um triste fim é cair na eugenia. “Os homens, exceto quem o diz, não estão prontos a viver em uma nova realidade”.

Mais do que nunca, o homem precisa lidar com o grande desafio de escolher uma entre as múltiplas razões existentes, e esse processo apenas aprimora o debate e permite uma convivência mais real, ao contrário do que Bauman afirma. As instituições, matem-me os conservadores e os seguidores de Bauman, nasceram para cair ante a implacável natureza humana. Seguimos movidos pelo sólido desejo de encontrar o que satisfaça nossas ambições. Adaptemo-nos.