Mergulho involuntário

Tullio Andrade
Aug 31, 2018 · 2 min read

Aí a gente ama… e se decepciona… e sofre… E depois recorre a qualquer conceito pré-estabelecido no discurso coletivo pra poder fugir da dor.

Aprendi rápido a falar de amor-próprio. Mas, como a maioria das pessoas, apenas da boca pra fora. Pra parecer forte. Pra mostrar (pra mim mesma ou pras outras pessoas?) que eu segui em frente.

Mas quem segue em frente? Não existe isso. A gente apenas vive… Seguindo para onde? Não sei. Mas preciso saber?!

A merda é que a gente mente pra si mesma. E menti pra mim sobre esse tal amor que sentia por mim mesma. Acredito que “amor-próprio” um dia teve um significado verdadeiro, mas hoje se tornou só mais uma falácia medíocre residual desse mudo superficial. E eu, como tanta gente, confundi amor-próprio com uma busca desesperada por autoafirmação.

Não quis entender que os amores vem… e vão. E é assim mesmo. Tudo, um dia, acaba. Não perdem a beleza apenas porque findaram e deixaram algum tipo de dor guardada lá no fundo. Fugir desse sofrimento não é apenas covardia, é negar a si mesma. A tristeza faz parte da vida. E ela tem uma razão de estar ali. Mas o que fiz foi usar artifícios e discursos pseudopsicológicos para fugir dela… Pra fugir de mim.

E o mesmo medo que tenho do sofrimento, tenho da solidão… Então, passei um batom e fui resgatar a mim mesma de algum poço no qual eu mesma me coloquei ao me deixar acreditar que estar sozinha é algum tipo de penitência.

E te conheci… flutuando pela superficialidade das sensações, vaidades e veleidades atuais. E me deslumbrei com a imagem que vi. E, sem outras opções (que escolhi não ter) aceitei o estrato mais externo de você (e de mim mesma)… e forcei-me a acreditar que aquilo era amor. Porque ninguém aceita a vida sem estar dentro de uma história de “amor”, como nos filmes…

Mas a superfície se desfaz.. tão rápido… tão fácil… Por mais que a gente tente fechar os olhos pra isso.

Talvez eu devesse olhar mais pra além da sua e da minha própria superfície. E encontrar, de verdade, dentro de algum lugar em mim o meu sentido. Acho que só encontrei agora… que estou vendo seu olhar de ódio se distanciar a cada metro que percorro em direção ao chão… E que ainda sinto suas mãos… as mãos que ontem me afagaram… mas que agora me tocaram pela última vez, pra me lançar no ar… num mergulho involuntário pela janela do apartamento em direção ao fim.

Porque tudo, um dia, acaba.

Tullio Andrade


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