Um conto quase erótico

Tullio Andrade
Aug 31, 2018 · 3 min read

Há trinta e cinco anos que eu fazia voos particulares e até então nunca havia me acontecido nada de muito estranho. A não ser daquela vez em que descobri um clandestino escondido na bagagem. Era um detetive particular, contratado pela esposa do meu passageiro…
Mas fora isso, nada! Foram incontáveis horas de voo na mais perfeita tranquilidade. E era exatamente por essa boa fama que adquiri a simpatia de vários clientes. Ao chegarem no hangar procuravam logo o meu avião. Acabei até ficando familiarizado, ganhei inclusive a confiança de alguns, devido a minha inviolável discrição. E foi justamente em mais uma dessas ocasiões em que eu precisava ser discreto que tudo aconteceu…
Era uma bela manhã de sábado, quando um antigo cliente, o qual não posso revelar a identidade, ligou me pedindo para levar uma “sobrinha” até sua chácara, onde estaria esperando, numa ilhota perto de… Ops!!! Também não posso dizer.
Logo que vi aquela mulher, percebi de imediato do que se tratava. Assim, embarcamos. Seria um voo relativamente rápido, poucas horas apenas. Horas, deliciosamente, agradáveis. Pelo menos para mim.
Desta forma, prosseguimos sem muito papo, embora eu relutasse em descobrir de onde eu já tinha visto aquele rosto… Ou melhor, aquele corpo, aquelas pernas, aquela… Bem, de súbito me surgiu a revelação. Sem hesitar retirei a revista que sempre levava embaixo do banco e… Batata!!! Era ela a “Miss de Julho”. A minha preferida. Minha companheira nas noites de solidão no banheiro do hangar. Eu sabia que conhecia aquele belo par de…
Continuando. Naquele momento a euforia me fez tremer, suar frio, sei lá. Era demais para mim. E foi demais mesmo. Me desconcentrei e um maldito urubu esbarrou na hélice. Com o choque acabei perdendo o controle e tive que fazer um pouso de emergência numa ilhazinha próxima.
Depois do susto constatei que seria impossível consertar a aeronave com o que dispúnhamos. Estávamos presos numa ilha perdida no oceano. Apenas nós dois. Eu e a minha miss do mês de julho.
Realmente foram dias difíceis! Não tínhamos o que comer, beber e quase nada para vestir. Dormíamos espremidos dentro do avião. E nossas necessidades… bem, vocês podem imaginar.
Os dias foram passando e, inevitavelmente, nossos instintos animais foram falando mais alto. Talvez fosse a fome a sede, sei lá. O fato é que vez em quando eu me surpreendia, irracionalmente, escondido observando minha companheira se banhando na praia. Que bela imagem. Perfeita! Deliciosamente, perfeita. Observava obsessivamente seu banho, sua pele, seus seios apetitosos, convidando-me para suaves mordiscadas… Eu podia sentir o seu gosto doce escorrendo em meus lábios. Aquelas carnes, aquelas coxas, aqueles glúteos macios, saborosos…
Animalescamente eu salivava. Seria inevitável, eu tinha que sentir o sabor daquele corpo. Assim, avancei vorazmente em sua direção. Ela, quase que inconscientemente, já me esperava e, lascivamente, entre meus braços, sussurrou:
– Me devora.
Então, a devorei.
Dois dias depois o meu cliente pousou com um helicóptero de resgate e foi logo perguntando pela “sobrinha”.
– Sinto, muito, mas ela não sobreviveu ao acidente.

Tullio Andrade

Escritor que às vezes tem muita fome


Se gostou, aplaude aí….

e vamos bater um papo…

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade