acordei meus olhos e notei que virei neblina. mas não somente neblina — neblina noturna, neblina noturna urbana. bêbada da aguardente que evaporou do chão sujo da feira. silenciosa tal qual a tua apinéia na hora do diabo. assassina e testemunha do sangue que escorre no esgoto junto com a merda destes transeuntes alucinados (porém de bem) que fingem lamento pelo sangue vertido do conforto de suas privadas de porcelana branca, numa meta-ironia sem fim.

sou neblina bêbada, suja, transeunte, assassina — aquela que nada vê mas tudo respira. sou o manto do viajante e o segredo do silêncio. carrego em mim o cheiro que guiará teus sonhos, ópio que se dissolve nas tuas narinas e na paisagem.

do décimo primeiro andar, neblina. escrevo como densa umidade pois inspiro e engasgo com minhas próprias palavras. cuspo para poder chorar. me precipito e te lavo, crua, o teu sangue e a tua cachaça e as tuas luzes inúteis.

tudo é silêncio quando caio e o luto raia pelo leste.

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