Abusado

A primeira vez que apareci na televisão, eu treinava futebol na categoria mirim da escolinha do KIONES no Aterro.

O Kiones era um negão com jeito de maluco, dicção difícil, meio atrapalhado, magro de doer, na casa dos quarenta, mas que passava metade da aula recebendo esporro da própria mãe: uma senhora de 130 anos que ele alcunhava de tesoureira da instituição (ela basicamente recebia as mensalidades).

A fama da escolinha era péssima, o time vivia levando goleada e o Kiones gritava com as crianças o tempo todo, era uma catástrofe, mas eu pagava só dez reais.

No meu primeiro dia lá, ele virou pra mim na frente de geral e mandou:

—Gordinho, tu joga de que?
(Eu gaguejando, tremendo até a alma)
—Eu?.... Acho que....de....atacante??...
—Ah tá. Mas aqui tu vai ser Zagueiro! 
—Mas..como assi...
—ZAGUEIRO. E vai logo correr pra emagrecer.

Lançou um colete de tactel preto na minha cara e fui dar voltas no campo.

Foram meses dando voltas no campo.

Corria, passava o tempo, mas o cara nunca me escalava nos jogos. E assim eu peguei não só fama de pereba, mas também o desprezo completo pela vaga de Zagueiro reserva. Ou seja, vivia frustrado, triste, e comendo bolinho Ana Maria escondido da galera pra não ser zoado.

Até que um dia
Um repórter da Globo
Entrou na quadra.

O kiones ficou todo nervoso,
começou a se coçar, andava pra lá e pra cá, a mãe dele aplaudia, berrava, era câmera, microfone, uma matéria pro Esporte Espetacular sobre qualquer bobagem de futebol e criança.

Numa hora o repórter quis entrevistar um dos meninos do time principal, mas todo mundo ficou acanhado, dando risadinha, fugindo da treta. Os “jogador tudo cheio de marra” agora estavam acuados.

E o Kiones lá suando frio...

Não sei o que rolou
O que me deu
Só sei que dei um passo a frente
peguei o microfone
e respondi o maluco na maior tranquilidade.
Uma entrevista inteira comigo
Todo mundo me olhando com cara de bocó
O Kiones tendo um AVC quase
E o zagueirão reserva lá
Tirando O N D A
Desbancando todo mundo

Em rede nacional.

Abusado.

Depois da entrevista, no treino seguinte, além do deleite de virar celebridade entre os meninos, o Kiones me promoveu pra lateral direito e me deu um abraço desconfortável pra caramba na frente de todo mundo quando cheguei. Ficou lá me elogiando horas desnecessariamente e anunciou: Próximo jogo você tá escalado.

A fama tem seus benefícios e assim aguardei ansiosamente pelo dia.

E ele chegou.

A grande estreia
Comprei uma chuteira Topper nova
Levantei o meião
Fiz cara de Léo Moura
Eu tinha onze anos
Era domingo de manhã
Um sol do cacete em cima da cabeça
O uniforme de titular era preto
De um tecido sintético fedido
Quente demais
Mas era o grande dia
Tinha que me afirmar.

Entrei em campo, fiz sinal da cruz
O calor tava insuportável
Quinze minutos de jogo,

já perdiamos por dois a zero e encostei na grade ofegante pra pedir água pra alguém.

Kiones me vê quase morrendo,
tem um ataque de fúria e começa a gritar. O jogo rolando e eu bebendo água no canto.

Gritou, gritou, gesticulou e quis me dar uma zoada.

Virei convicto
Olhei em seus olhos
e mandei:

—VAI TOMAR NO CU KIONES, TA CALOR PRA CARALHO.

Ele chegou a travar. Arregalou os olhos, gritou mais ainda. O pessoal em volta chocado começou a rir muito.

Ele então invade o campo, chama atenção do juiz, interrompe o jogo, aliás, diga-se de passagem, um jogo oficial do campeonatinho lá, na minha estreia, faz o cara mostrar o cartão vermelho pra mim e manda que eu tire o uniforme. Me expulsou da escolinha ali mesmo, com 15 minutos de jogo. Disse que eu era preguiçoso, abusado, e me botou pra fora.

Depois disso, nunca mais voltei lá.


Ali encerrei meu sonho de ser jogador, pendurei as chuteiras, a torcida não fez a menor questão que eu ficasse também.

Me dei conta anos depois que aquilo ali era um presságio do que viria, saí da fase futebol pra fase da leitura compulsiva, do violão debaixo do braço. Descobri que meu negócio mesmo era falar, contar história, arranjar briga e depois contar história da briga.

12 anos depois estou escrevendo aqui agora, tentando entender como foi que eu cheguei no que sou

e tenho que reconhecer:

Graças ao Kiones

Graças aquela entrevista.

Tô aqui.

Afinal,

Tem gente que nasce jogador de futebol

e tem gente que nasce abusado.

Mas se não fosse o desentendimento, eu certamente estaria aí hoje, zagueirão reserva da seleção brasileira. Uma pena, mas quem perdeu mesmo foi o futebol.