Carta de Preto Brejeiro para Marta (1985)

Querida Marta, com excessão de João Maypú que engoliu uma pirâmide por engano durante a ceia temática de natal e agora está a três dias cuspindo múmias de alcaçuz, estão todos bem. Nós, desde quinta passada somos em cinco porque os meninos de Sergio já voltaram para a cidade e isso deixa muito tempo livre para replantar as suculentas e por as vacas para dormir. Papai continua com os olhos tortos, vive se escondendo dentro das garrafas de vinho e mascando boldo o dia inteiro. Você deveria ligar às vezes para saber como estão as coisas, dividir suas notícias pequenas.
O mar de Copacabana continua grande? Quero tentar levar Martina e Ivan pra ver o Afonsinho jogando no Maracanã nesse ano novo, e se você ainda estiver namorando aquele ponta direita do Fluminense, veja com ele se consegue uns bilhetes para os dois. Eu aqui ganhei alguns quilos, como não chega muita notícia, o povo começa a inventar e então agora parece que uma prima de Noquinha do lote 3 descobriu que tem uma imagem de Santa Rita que chora água doce e estão todos comovidos. Se eu não virar argila ou comida de urubu, vou até o Rio com os meninos esse ano, de verdade, quero beber água salgada e entender um pouco mais desse tal movimento dos operários grevistas de que ouvi falar no telejornal. E pra além disso, como falava teu irmão: A liberdade é uma brahma gelada!

Beijos do teu preto brejeiro.
Me escreva depressa que gente bonita vive pouco.
05/01/1985

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texto publicado em 05/02/2017

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