de pé

e se sobrevivemos juntos
ao escárnio vazio dos anarquistas
aos olhares vermelhos
sob os círculos persecutórios
dos grandes coletivos universitários
e mais uns três ou quatro palpiteiros de facebook
enquanto juntava as moedas
pra conseguir pagar a conta de luz atrasada
mesmo ninguém se importando
fui eu quem ficou de pé
quem segurou as pontas
quem fez a barba no banheiro da rodoviária
dividiu o café com um morador de rua
quem morou na rua
no sentido de que um individuo
não tem casa quando não sabe pelo que está vivendo
e eu poderia ser qualquer coisa agora
porque sobrevivemos juntos
aos batedores motorizados do VLT
que nos perseguiam com suas sirenes pelo centro
ao mau humor de todos os poetas
aos traidores da causa
ao bombardeio de nossos herois velhos
enquanto os outros escondiam os corpos
e as faturas de cartão de crédito
no quintal de Tancredo Neves 
que está morto
e graças a deus eu não
graças a deus
porque você
me estendeu a mão
porque eu achei mesmo
que ia morrer afogado
com tantos fantasmas na garganta
e essa sensação rasteira
de que nada se explica bem
depois que se envelhece
numa cidade assim
e mesmo com tantas mortes
pra digerir com os ombros
eu sinto a juventude nesse copo
no primeiro assovio do asfalto quente
e continuo sorrindo
pulando todos os muros que me separam
do que é meu
e que é sempre nosso
nessa noite que nunca termina
antes de você me tirar pra dançar
ou do sol nos expulsar a força
da Padaria Santo Amaro.

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