m a d r u g a d a

uma madrugada como esta
vamos definir
é essencialmente composta
por vagabundos pedindo cigarro
e trabalhadores retornando à casa.

numa madrugada como esta
meu rosto no jornal popular
não seria por acidente
não estaria salvando o mundo
e nem ditando uma receita de bolo
afinal
quantos serão capazes
de conter um golpe no joelho
todos os dias
e tranquilizar a rótula 
com palavras de otimismo.
apesar de ser metade esfinge
e metade farelo de ossos
meus ancestrais hoje
estão falando muito alto
aqui dentro
presumo
que devam estar de festa
ou preparando uma guerra
já que enquanto você vai ao banheiro
eu conto meus problemas nos dedos
e escondo uma mão ferida
que agora tornou-se pata de cavalo
fincada numa meia lua
de ferradura e cal.

em confissão ao meio-fio
assumo
que não consigo levantar os olhos
desde semana passada
porque a gravidade
não costuma ser matéria de estudo
dos rapazinhos que tem minha cor
porque não nos ensinam
porque estamos sempre com as mãos ocupadas
com rifles
enxadas
ou guimbas de cigarro

uma madrugada como esta
é essencialmente como foi a anterior
eu cavalo dos problemas dos meus ancestrais
que não são só
meus medos
sou eu preparando uma guerra
enquanto retorno à rua
essa sim
minha casa
batalha de mil encruzilhadas.

27/01/2017

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