Sobre padrões

Sabe aquele tipo de coisa que sempre te incomodava mas nunca você conseguiu materializar exatamente para descrever o que é? Vai ver que é porque está tão enraizado em sua educação que o que você sente bate de frente com o que te foi ensinado como “correto”. Afinal “temos que ser racionais. Emoção e sentimentos são coisas de pessoas fracas…”

E então, André Camargo conseguiu compilar lindamente nesse artigo o que os padrões sempre me incomodaram: 18 Quadrinhos Contundentes Para Entender Por que Colocar uma Criança em uma Escola Tradicional é um Desastre

Ainda lembro de uma professora (lembro do nome e poderia descrever a aparencia também, mas por ética não o farei) que mesmo sabendo da minha vergonha PROFUNDA de falar em público, me obrigou a recitar a tabuada (da qual tenho trauma até hoje — e vai ver que por isso nunca consegui ir bem com números) na frente de 30 (FUCKING) alunos e me intitular “burra” já que eu DECOREI as primeiras, tinha a do 5 na ponta da língua (e foi o relógio de ponteiro que me ensinou, já era minha referencia e me ajudava a fazer contagens regressivas para sair daquela sessão de tortura) e o resto era um buraco negro em minha cabeça que preferia prestar atenção nas crianças brincando na quadra do que saber o que aquela ogra queria queria grampear em meu cérebro sobre números!

E isso segue até hoje: você entra em um emprego (na minha experiência dentro do departamento de criação) e é questionada porque não é da zoeira forçada como os outros. “Nossa! Como você é calada né? Precisa interagir mais”… só faltam me falar que tenho que usar xadrez, colocar meu óculos de armação grossa, deixar o cabelo desgrenhado e a “barba” pra fazer… Barba? Gente! Sou mulher! Fodeu! Já não me enquadro mais MESMO!!!

Ou então da vez em que estava no auge de minha magreza, ouvi de um booker de uma agencia de modelos renomada de SP que eu estava acima do peso (falei aqui); ou quando estava finalmente modelando e ouvi de uma garota que tinha os estudos/livros como fulga da vida frustrada me chamar de energúmena só pelo fato de ser “modelo”…


Se você prefere ouvir, analisar e depois falar, acusam que sua comunicação é falha. Sempre haverá um exemplo a ser seguido e sem dúvida alguma você nunca será um deles, uma vez que você não “se submete” a aceitar tudo o que te impõem. Essa divergência deveria chamar conflitos de opiniões, de personalidade e pensamentos, mas não, se um “ser maior/superior” exige, você simplesmente deveria acatar, assim como ensinaram na escola, lembra?

Sempre tentam te forçar a fazer coisas que você odeia: acordar cedo; trabalhar no mesmo horário que os outros; pegar trânsito; seguir padrões que você não se identifica; bater cartão; agir de forma adequada porque será auspicioso para sua relação com aquele grupo de você não se sente confortável; ter um bom carro; morar em XPTO lugar; estar sempre jovem/linda/malhada/feliz/disponível (igual aquelas meninas do “garotas adoráveis”); a ser bem sucedida financeiramente/economicamente/sexualmente/amorosamente/espiritualmente (esse último raramente entra em pauta, uma vez que o material fala muito mais lado do que a essência!)…


Não faz muito tempo que um novo colega perguntou para mim e mais uma pessoa o que “fazíamos da vida”: a pessoa respondeu sobre sua profissão com todo o status que a mesma carrega. Quando chegou minha vez de responder, me peguei tão frustrada quanto na situação humilhante que a professora de matemática me colocará na terceira série: estou há quase um ano sem emprego fixo, tentando fazer as coisas acontecerem por conta própria (o que é BEM COMPLICADO quando não te é apadrinhada por alguém da profissão), completamente FORA do que me ensinaram na escola (que devo ser funcionária, bater cartão, dar satisfação pra pessoas que estão pouco se fo**ndo pra minha saúde física ou mental, ter uma “carreira” e esperar que a meritocracia de uma país extremamente machista reconheça todo meu suor, mesmo sendo mulher!). E não só isso, além do meu esforço para que meu projetos deem certo, tenho sido diretora de arte, design de inteiores, vendedora, lider de equipe, dona de casa, adestradora de cães, social media dos meus projetos e dos de outras pessoas, faxineira, cuidadora… e mesmo assim isso não é motivo para eu ter mérito em NADA, uma vez que NADA disso tem me rendido “status” financeiro! Minhas ideias nesse período têm se fundido com as de outros com “mais status” e meu nome acaba sendo aniquilado do processo de criação, porque afinal “quem sou eu para ter uma ideia que presta? O que eu faço da vida?”. Ou então numa roda de amigos, outras pessoas que fazem a mesma coisa que você (uns até com o trabalho igual ou inferior ao seu e outros que pegam muita de SUAS ideias como referência para seus projetos particulares), são exaltados e paparicados exatamente porque eles têm alguma coisa fixa. Mas e você? No que você se encaixa? Que padrão que segue? Olha eu aqui sendo humilhada publicamente (as vezes até por pessoas que a gente esperava apoio, reconhecimento e adimiração) assim como na terceira série simplesmente porque não me encaixo em um padrão.

E então…

Sofremos de baixa auto-estima, carência, solidão, excesso de auto-crítica, insegurança, angústia, ansiedade, inibições e oscilações de humor. Pânico e Depressão. Tornamo-nos dependentes de remédio, de sexo, de comida, de elogios, das mídias sociais ou do consumismo vazio.”

Quando na verdade deveríamos nos frustrar de ouvirmos “Nossa! Você está tão padrão! Tão normalzinho fazendo as mesmas coisas que os outros e justificando isso tudo como uma coisa natural!”

Que bode de você! Tão igualzinho…

https://medium.com/brasil/18-quadrinhos-contundentes-para-entender-por-que-colocar-uma-crian%C3%A7a-em-uma-escola-tradicional-%C3%A9-um-d66d182c3d77

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