Empatia: reconheça seus privilégios

Crédito da foto ao porta “Mega Imagem”

A mais ou menos 1 semestre inteiro, estou dando aulas em uma escola pública. E aprendi muitas coisas lá, MUITAS mesmo. Mas dei uma pincelada aqui para vocês.

Eu tenho interesse em ajudar as pessoas com aulas faz muito tempo, porque gosto de explicar matérias, mas o principal motivo não é esse. Quero ajudar a contribuir com o propósito coletivo e ao invés de ficar discutindo no facebook sobre desigualdade social, problemas sociais e privilégios em si, resolvi vivenciar isso, possibilitando criar um vínculo de empatia ainda maior do que sentia.

Tudo que vi lá me surpreendeu. Do jeito que descrevem e você sabe, mas quando isso é vivenciado, você sente que é algo nunca dito antes, porque não é falado e sim sentido.

Começando: os coordenadores e diretores são fenomenais. Pensamos em burocracia e etc., quando falamos de algo público. Porém, eles conseguem tornar a nossa experiência fácil e significativa. Gilberto e Beth (coordenador e diretora, respectivamente) foram totalmente atenciosos, muito mais de que muitas escolas particulares que já fui. Até abriram espaço para a minha mãe facilitar um workshop de propósito!

As aulas eram opcionais, começamos com alunos dos terceiros anos trabalhando Matemática e Física, todos muito dedicados. Só que infelizmente, esses 5, não puderam continuar. Uns tinham cursos para fazer que resultariam em um futuro emprego duvidoso, outros tinham que realmente trabalhar para poder contribuir com a família. E infelizmente, essa galera não sabia matéria de nono e primeiros anos, e a culpa não era deles.

Paramos por duas semanas para começar com alunos de primeiros anos e segundos. Começamos com 4. Passamos por várias aulas produtivas e com total interesse, mas o que realmente me comoveu foi essa segunda (20/11/2017).

Uma das meninas que estava lá chegou chorando, para falar a verdade, foi a única pessoa que apareceu no dia. Não perguntei o porquê pois não queria ser intrometido na vida dela. Mas fiquei muito preocupado. Estávamos conversando sobre a matéria, quando ela acaba tocando no assunto: “O que vocês fariam se a mãe de vocês dissesse que quer se matar”. Ela acabou comigo. Automaticamente já lembro do que aconteceu esse ano. Eu fiquei em silêncio e expliquei para ela que passei por coisas parecidas. Ela começou a chorar e desabafou comigo. Aquela menina, de 16 anos, mesma idade que eu praticamente, passou por coisas que quebram esse conceito conservador e antidemocrático chamado meritocracia. Ela tem alguns irmãos, um deles tinha sido preso naquela manhã pelo que tinha me dito. O pai dela o largou quando era menor, e a mãe tinha que sustentar a família sozinha. A mãe dela passou fome para dar comida para eles e teve que comer do lixo. Ela, como filha em uma sociedade patriarcal e machista, ficou responsável por cuidar dos irmãos mais novos, fazer comida, lavar roupa, em resumo cuidar de toda casa. E ainda pra piorar toda situação: um irmão divorciado com filho, que não paga pensão, ela foi abusada por um tio quando tinha 10 anos e sua mãe, sem dinheiro, deu uma moto para um dos irmãos, porque ele disse que ia trabalhar e seus amigos ficavam em uma disputa por ego quando esnobavam suas motos para ele. E ele foi preso por tráfico.

A menina ainda tira notas boas na escola, faz tudo pela mãe, mas comentou comigo que a mãe não fala um eu te amo para ela. Que diz para todos irmãos, menos para ela. Que tem marcas no corpo por sua mãe ter te batido.

E a pergunta principal é: ela escolheu tudo isso?

Se a sua resposta é não, parabéns, você reconheceu que existem privilégios na sociedade. Eu tive todos possíveis: nasci branco, berço de ouro comparado a pessoas nessas condições, homem, uma família maravilhosa e com inúmeras pessoas que acreditam em mim, me apoiando nos meus objetivos.

Esse mundo é injusto e parece que nós estamos nem aí, cara. Esse é o motivo principal de eu estar fazendo coisas pelo mundo: eu sou muito indignado com tudo isso. Não faz sentido viver em um mundo assim.

Sou grato por poder tido a oportunidade de viver experiências assim, e só pude realmente ter esse senso de gratidão, quando comecei a instigar um Breno mais empático.

Vocês podem fazer alguma coisa pelo mundo. Não sei se esse texto de alguma maneira os tocou, mas uma coisa eu garanto: vocês não sabem o poder que tem de mudar o mundo. Uma pessoa quando junta com outras pode ainda muito mais. E quando digo muito, não estou brincando.

Vocês podem começar de um jeito bem simples: tentando serem melhores pessoas a cada dia. Não tente mudar pessoas, mas inspire-as a mudar. Tente se colocar no lugar do outro, mesmo daquele que você mais odeia. Imagina que também é um ser humano e tem uma vida, como você.

A lição hoje é: não seja um babaca. Se estiver sendo um agora, é inconsciente, relaxa. Muitas coisas são dfíceis para entender. Mas saiba reconhecer seus privilégios, sendo grato por eles e as pessoas nele envolvidas. Só assim você se torna uma pessoa mais feliz e coletiva. Isso já algo muito bom. Poder fazer algo que ajude nessa causa, é melhor ainda.

Talvez nem sejamos um átomo comparado a todo universo, mas pode ter certeza: todos estamos conectados com ele, porque fazemos parte dele. E isso que nos torna muito grandes.

Chamada à jornada

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