Artigo: Mapeamento Cultural: a rede da cultura na fronteira

“Mas quem disse que a cartografia só pode representar fronteira e não construir imagens das relações e dos entrelaçamentos, dos caminhos em fuga e dos labirintos?” (Jesús Martín-Barbero em Ofício de um Cartógrafo.)

Resumo: O projeto Mapeamento Cultural é uma iniciativa da Pró-reitoria de Extensão, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana, e tem como objetivo descobrir os agentes e os fluxos que criam a dinâmica cultural de Foz do Iguaçu, buscando desenhar a rede de produção das ações culturais na região trinacional. Este projeto vem responder a uma necessidade já apontada pela população, onde a demanda por acesso e pelo fomento à produções artístico-culturais cresce continuamente. Ao desvendar a rede por onde estes projetos acontecem, será possível entender sua dinâmica de desenvolvimento, encontrando as dificuldades e oportunidades, e também ressaltando características importantes da identidade desta região. O que se pretende com este mapeamento é ressaltar a qualidade e o potencial dos projetos culturais desenvolvidos na região, fomentando as interconexões desta rede produtiva, apoiado nos conceitos de mapeamento colaborativo, cultura, cultura digital e redes sociais.

Palavras-chave: mapeamento colaborativo, cultura digital e redes sociais.

A cidade de Foz do Iguaçu foi fundada em 1914, e sua maior marca é a forte vocação turística, sendo mundialmente conhecida pelas Cataratas do Iguaçu, pela Usina Hidrelétrica de Itaipu e pelo turismo de compras no Paraguai e na Argentina. Além de seus atrativos turísticos, a cidade é também conhecida pela sua multiculturalidade, reforçada pela sua localização fronteiriça e também pela presença de mais de 70 etnias e seus costumes, o que possibilita um ambiente criativo e propício para trocas culturais. Destacam-se entre os principais referenciais materiais desta multiculturalidade o Templo Budista e a Mesquita, convivendo pacificamente como símbolos desta grande diversidade cultural.

Mas é na vivência e no desenho dos bairros e das grandes regiões de Foz do Iguaçu que é possível entender como os fluxos culturais acontecem no cotidiano, e é por meio deles que a cidade respira e se desenvolve. Por conta de seu acelerado crescimento, em razão da construção da Itaipu Binacional, a cidade se dividiu em grandes regiões, onde é possível constatar a existência de bairros autônomos, com seus próprios pequenos centros comerciais e áreas de convivência, tornando o fluxo da cidade mais descentralizado e distribuído. Este fluxo descentralizado e distribuído ressalta a grande diversidade cultural aqui existente, porém, traz consigo um grande desafio que deve ser transposto para o desenvolvimento de projetos relacionados à cultura: a dificuldade de integração e o distanciamento dos agentes que trabalham com cultura.

Este desafio é o que motivou a criação do projeto de extensão Mapeamento Cultural, que iniciou suas atividades em Março de 2013 e tem como objetivo descobrir os agentes e os fluxos que criam a dinâmica cultural de Foz do Iguaçu, buscando desenhar a rede de produção das ações culturais da região trinacional.

Material e Metodologia

Para o desenvolvimento das primeiras linhas de atuação do projeto Mapeamento Cultural foi necessária a realização de uma pesquisa bibliográfica inicial para localizar e definir alguns conceitos chave que auxiliaram no direcionamento deste trabalho. Como ponto de partida foi o próprio conceito de cultura, pois ele é parte central do objeto que está sendo analisado. Desta forma, este Mapeamento Cultural aborda a cultura como pano de fundo para identificar a rede de agentes culturais na cidade de Foz do Iguaçu, entendendo, tal qual Geertz (1989, p.24), que:

[…] a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível.

Ao entender a cultura como contexto é possível caracterizar o mapeamento destas redes de pessoas, grupos e instituições como um estudo cultural, mesmo que o objetivo deste levantamento não seja descrever com densidade características específicas de cada agente, mas sim possibilitar uma visão abrangente sobre quem são e onde estão inseridos na cidade.

Desta forma, partiu-se para explorar a ferramenta mapa, sendo ele um recurso que permite trabalhar as informações de forma diversificada que, com informações baseadas na localização geográfica, possibilita uma leitura do contexto e uma visualização rápida da rede de agentes que estão sendo mapeados. Como afirma Cosgrove (2005, p.28), “o mapa permanece um modo poderoso de visualizar e representar os aspectos espaciais de como culturas se formam, interagem e mudam” e o mapeamento desta dinâmica de formação, interação e adaptação, inerente à cultura, será melhor traduzido com a linguagem multimídia da web. Seguindo com estes direcionamentos conceituais, o projeto foi sendo desenvolvido seguindo algumas etapas bem definidas: da padronização da informação, a escolha da ferramenta, a realização de uma Pesquisa Exploratória e a Coleta de Dados final.

Para dar conta das informações que seriam coletadas por este mapeamento, foi necessário criar uma padronização da informação que seria levantada sobre cada agente cultural, definindo, por sua vez, quais as informações mais importantes que deveriam constar na plataforma online. Este foi um momento muito importante para o projeto, pois foi assim que foi descoberto a iniciativa do Ministério da Cultura de criar um banco de dados nacional que reuniria informações sobre os agentes culturais de todo o país, o Sistema Nacional de Informação e Indicadores Culturais (SNIIC). Vale ressaltar que nesta etapa do projeto Mapeamento Cultural o SNIIC ainda não havia sido lançado, sendo necessário contato com membros do Ministério para obter informações sobre a organização das informações do Sistema. Desta forma foi criada a padronização de informações dos agentes culturais, seguindo as linhas gerais do SNIIC, mas adaptando-as as necessidades locais.

Após definida a padronização das informações, foi necessário se debruçar sobre a escolha da ferramenta na qual seria disponibilizada o mapeamento online. Desta forma, a equipe do projeto Mapeamento Cultural analisou uma série de experiências colaborativas que trabalham com informações georreferênciadas. Nesta etapa verificou-se que a maioria destas iniciativas se utilizam do Google Mapas como base para seus mapeamentos aliado a outras plataformas livres. Isto significa que a tecnologia Google é a que possibilita a base do georreferenciamento, mas que a plataforma final era a fusão entre a tecnologia Google e software livre. E foi justamente este movimento que utiliza o software livre como base de seu trabalho que foi o escolhido para criar o mapeamento cultural. O software utilizado é um tema do Wordpress desenvolvido para ser uma ferramenta aberta e de fácil acesso, chamada Mapas de Vista. Com esta ferramenta é possível criar os mapas necessários, distribuindo conteúdos multimídia para complementar as informações.

Com a padronização das informações e a plataforma definida foi o momento de se iniciar a pesquisa exploratória para conseguir as primeiras informações e testar toda a metodologia até então estabelecida. Esta pesquisa foi realizada aproveitando da realização de quatro eventos municipais dirigidos à agentes culturais. Entre os meses de abril e julho de 2013 foram feitos cadastros dos participantes destes eventos, por meio de um questionário preenchido no momento da inscrição dos participantes. Estes cadastros forneceram os primeiros dados que subsidiaram o teste, tanto da padronização da informação, quanto da plataforma online escolhida. Desta forma foi possível publicar a primeira versão do Mapeamento Cultural UNILA, já disponível para acesso. Os próximos passos serão no sentido de aprofundar as informações dos agentes já cadastrados e de iniciar um trabalho de mobilização e motivação do acesso por estes agentes na ferramenta, pois somente assim esta ferramenta poderá auxiliar na criação da rede de cultura da cidade.

Resultados e Discussões

O primeiro resultado deste projeto vem responder aos questionamentos comuns da comunidade, que afirmam que Foz do Iguaçu é uma cidade sem cultura, onde não há produção cultural. De fato o que este projeto desvendou em sua pesquisa exploratória foi justamente o contrário, há um grande número de agentes e espaços culturais na cidade, porém estes agentes tem atuação muito regionalizada, ficando restritos aos seus bairros mais próximos. O resultado da pesquisa exploratória foi a identificação e o cadastramento de 135 profissionais das artes e da cultura da região, 40 instituições e/ou grupos formais e informais que trabalham diretamente com estes temas e 66 escolas e colégios do município.

Assim, é possível reconhecer que estes são números expressivos, ainda mais em se tratando de uma cidade que é composta por pouco mais de 256.000 habitantes e que conta com pouca infraestrutura de apoio ao desenvolvimento do setor cultural. Somando-se a este mapeamento inicial, os resultados deste projeto são potencializados ao vinculá-lo a outras iniciativas da Pró-reitoria de Extensão da UNILA. Uma das propostas que está em andamento é a inclusão dos projetos e programas de extensão no mapeamento, possibilitando uma forma diferenciada de divulgação destas ações. Ao indicar no mapa o projeto e/ou programa de extensão justamente na comunidade em que ele atua, a universidade disponibiliza, de uma forma bem prática e de fácil compreensão, a informação sobre o que está em desenvolvimento e quais os resultados para comunidade envolvida.

Além de identificar os agentes culturais da região e de promover as ações de extensão de forma geral, o projeto Mapeamento Cultural assume um papel político ao vinculá-lo a atuação da PROEX no Conselho Municipal de Políticas Culturais de Foz do Iguaçu. Como a pró-reitoria tem uma cadeira como representante da universidade neste Conselho, é possível ter acesso ao cenário cultural da cidade e se manter próximo de toda a discussão para o desenvolvimento das políticas de cultura do município. Desta forma, foi com o desenvolvimento do projeto Mapeamento Cultural que está em andamento o diálogo para a criação do Sistema Municipal de Informações e Indicadores Culturais (SMIIC), que utilizará da mesma base de informações da qual é criada o mapeamento, o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais.

É desta forma que o projeto Mapeamento Cultural contribui com o estabelecimento da rede de agentes culturais de Foz do Iguaçu, por meio da facilitação da informação do cenário cultural e das ações integradas da Pró-reitoria de Extensão da UNILA.

Conclusão

Assim, ao trabalhar para cumprir seu objetivo de mapear os agentes culturais da cidade de Foz do Iguaçu, o projeto possibilita a visualização e o fortalecimento da rede por onde as ações culturais se desenvolvem, assumindo junto à outras ações da Pró-reitoria um papel estratégico na construção dos novos caminhos da cultura da cidade. Além disto, o projeto se posiciona como uma importante ação para a Pró-reitoria de Extensão, pois cumpre o papel de identificar a comunidade e suas características, facilitando para que professores e alunos possam se integrar mais facilmente às dinâmicas locais, facilitando a integração dos projetos de extensão com suas comunidades.

Referências

COSGROVE, Denis. Mapping/Cartography. In: Sibley, David et al., orgs. Cultural Geography: A critical dictionary of key concepts. Londres: Tauris, 2005, p.27–33.

GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Editora Vozes — 1° Ed. 1997: Petrópolis — RJ.

OLIVEIRA, Roberto Reis de. Espaço, território, região: Pistas para um debate sobre comunicação regional — trabalho apresentado no X Congresso da Lusocom — “Comunicação, Cultura e Desenvol­vimento”, promovido pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, Lisboa, Portugal, 27 a 29 de setembro de 2012, GT Sociologia da Comunicação. Disponível em: http://www.uff.br/ciberlegenda/ojs/index.php/revista/article/viewFile/659/358 . Acessado em: 26/03/2014.

SEEMANN, Jörn. Cartografia e cultura: abordagens para a geografia cultural. In: Zeny Rosendahl; Roberto Lobato Correa. (Org.). Temas e caminhos da geografia cultural. Rio de Janeiro: Editora de UERJ, 2010, v. 1, p. 115–156.

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