a minha morte há de ser poética

Com todos os requintes que uma poesia tem direito.

Uma mente brilhante em colapso, logo após abrir o registro de água, ainda em baixo do chuveiro. Os azulejos dourados escorrendo os respingos vagarosamente, como uma rodovia engarrafada, como uma mente descontente.

Rachmaninoff estará na sala, solitário com seu piano, tocando concentrado sua terceira. E que bela terceira, a trilha sonora perfeita!

A água baterá na nuca, molhará meus cabelos, escorrerá pelo meu corpo e irei sentir cada gota descendo, devagar, até o chão, traçando uma rota sem resistência, apenas cedendo à gravidade.

O corpo liso e ensaboado, deslizarei as mãos, irei sentir o pescoço, o antebraço e então, penetra. Fina, lisa e gélida, a lâmina.

Me apunhalam pelas costas! Covardia ou misericórdia? Não ei de ver meu santo, meu libertador ou qualquer coisa assim. Irei ao chão, agora vermelho.

E que belo vermelho. E sumirei.

Haverão de me descobrir depois de dois dias, quando o dono da loja chegar de viagem e perceber que não fui trabalhar nesse tempo.

Ele vai chegar na casa dos meus pais e perguntar por mim e eles dirão que sumi e não dei mais notícias.

Os três irão juntos até minha casa, perguntarão por mim a senhoria e vizinhos. E eles dirão:

“Não o vejo a dias. Sumiu. Mas parece que o som está ligado. Toca piano.”