A cidade

Daquela noite eu apenas lembro do ar gelado,

Ele que insistia em entrar pelas frestas,

Incomodando mais do que um chá pronto,

Ou um micro-ondas avisando que o câncer está pronto para ser digerido.

O seu prédio era no sétimo andar,

Só me faltava o pavor da hipotermia,

A estranha sensação de não ser visto por ti,

Eu não estava lá,

Eu imaginava.

Me debruçava,

Me dava de ombros na minha janela,

Soprava teu nome ao vento,

Rezando para que ele encontrasse tuas orelhas,

Como o vento frio entra em meu quarto.

Meu olhar percorre a cidade acordada às 02:00 da manhã,

Vejo as avenidas como grandes artérias coronárias,

Os veículos como o sangue a circular,

E as pessoas…

Apenas as vejo,

Não valem menções.

Sinto o odor do cigarro barato vindo do apartamento de baixo,

E uma neblina cinza a invadir minha contemplação.

Sinto o frio de meus pés descalços,

E o sono lutar com a insônia,

Vejo tudo daqui do alto,

Mas não vai durar.

A geada chega,

O gélido ar agora congela,

Vejo sua luz apagar,

Não sinto cheiro de cigarro,

Meus pés nem sentem mais frio,

Meus olhos que começaram a relutar freneticamente, agora se entregam,

Vejo as luzes se transformando em riscos,

O ar cortando feito navalha,

Meu olhos agora adormecem,

E em poucos segundos serei eu, mais uma parte da arquitetura da grande cidade.

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