Crítica – O Filme da Minha Vida

NOTA ★ ★ ★ ★ ☆

Vou abrir esse texto falando sobre a direção de fotografia de ‘O Filme da Minha Vida’, provável representante do Brasil nas premiações estrangeiras. Walter Carvalho fez um espetáculo visual, com cores e enquadramentos detalhadamente prontos para me desafiar (se vai te desafiar, aí já é outra história). E é assim que vou tentar montar minha interpretação. Partindo da fotografia.

Esse filme é para ter desejo de arte, é preciso ver, enxergar e observar. Eu até poderia tentar explicar usando signo, símbolo e etc, mas não quero e não vou incentivar o rótulo de “feito para público cult”. Termo de laboratório aqui não. Então, viaja comigo. A ideia é a seguinte: as cores atraem sentimentos e reações de quem está enxergando. Isso é psicologia. E ‘O Filme da Minha Vida’ transborda psicologia das cores ao subir ao altar com o roteiro, escrito por Marcelo Vindicatto e Selton Mello. O casamento é certo, mesmo com o noivo capengando um pouco…

Comecei querendo apontar sépia e amarelo como almas das cenas. Mas é vermelho. Eu te conto o porquê…

Em certo momento do longa, que se passa em 1963, o personagem principal, Tony Terranova, deseja ir ao cinema da cidade vizinha para ver Rio Vermelho (1948), um faroeste da old hollywood. De primeira fiquei um pouco indignada, pois existem referências que inúmeros brasileiros jamais entenderiam. Mas engoli essa possibilidade e estruturei minha teoria com base no que eu já conhecia da obra norte-americana: ‘O Filme da Minha Vida’ é sobre amor x medo, sensualidade x perigo, maturidade x fuga. E, pense um pouco, qual cor combina com esses embates?

Tony é filho de Sofia Terranova, uma brasileira, e de Nicolas Terranova, um francês. No longa, gravado nas serras gaúchas, a família espalha amor e conforto. E esse elo ganha uma grande carga emocional ao apresentar para o público uma bicicleta e uma moto (detalhe: as duas são feitas de ferro, que é categorizado como vermelho). A primeira, é o ato de libertação de Tony, o seu amadurecimento e a busca de seu objetivo que, neste caso, é a moto de seu pai, um material que oferece perigo, adrenalina e que faz de Nicolas “o cara”, o exemplo masculino de Tony.

Mas há também um terceiro meio de transporte de metal nessa história, o trem. Este queima combustível para seduzir e levar Tony à cidade grande, onde ele decide estudar e virar professor. Anos depois, o rapaz volta. Amadurecido, pronto para alcançar seu antigo objetivo. Porém, o mesmo ferro dá a fuga para Nicolas, que desaparece antes mesmo de rever o filho. Em certa altura do ‘O Filme da Minha Vida’, ganhamos um bom conselho do próprio condutor do trem, que diz em, se não me engano, sua única fala que “tudo tem seu tempo”. E tem mesmo.

Os detalhes nas folhas secas, a mudança de estação, os flashbacks, tudo culmina para demonstrar a deterioração do relacionamento entre pai e filho. E tudo desmorona dentro da cabeça de Tony. Que, para tentar dissolver o problema, encontra seu rosa claro. Luna Madeira, é o apoio emocional, a recuperação, o contrário daquela revolta.

Mas é importante falar de Paco, personagem do também diretor Selton Mello, que apresenta uma espécie de charada não só a Tony, mas ao público: “Qual a diferença entre o porco e o homem?” Ele, em seguida, responde que “o homem sabe o que quer, o porco só é um porco.” Veja Paco como vilão ou use a frase como instrumento de reflexão para as consequências da história e da vida. No entanto, não demoro aqui, pois seria spoiler.

É bom lembrar que o longa abre com Tony contando que seu pai, Nicolas, só assistia ao início dos filmes, para saber a história dos personagens, e ao fim, porque todos terminam felizes (“o que você está dizendo, porra?” – Haneke). E essa frase aparece em alguns momentos importantes, preste atenção.

O filme faz jus ao título. É o processo de perceber a destruição antes que ela aconteça e saber crescer, amadurecer e entender que essa é mais uma fase de sangue, calor e amor que transforma e permanece gravada na vida. Esse é o ciclo comum que nos conecta. No fundo, somos irmãos passíveis do mesmos erros e evoluções. Ah, e como mostrou Krzysztof Kieślowski, a fraternidade também é vermelha. Até a próxima.

*Não entrei nas demais partes técnicas por opção. A quantidade de planos fechados me incomodou no início, mas conseguiu dar um ritmo agradável e cômico para o filme. Nas atuações, gostei do Selton Mello (Paco) e da Camélia (Martha Nowill), em alguns momentos ela lembrou Madame Clessi, de ‘Vestido de Noiva’, não sei bem o motivo.

**Este filme é uma adaptação do livro ‘Um pai de cinema’, escrito por Antonio Skármeta.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=TDVegL5nfYs

Elenco: Johnny Massaro (Tony Terranova), Vincent Cassel (Nicolas Terranova), Bruna Linzmeyer (Luna Madeira), Selton Mello (Paco), Ondina Clais (Sofia Terranova), Bia Arantes (Petra Madeira), Martha Nowill (Camélia), Erika Januza (Tita), Miwa Yanagizawa (Brigite). Rolando Boldrin e Antonio Skármeta.

Produtora: Vania Catani.

Produção executiva: Leonardo Edde e Vania Catani.

Direção de arte: Claudio Amaral Peixoto

Figurino: Kika Lopes

Trilha sonora: Plínio Profeta

Distribuição: Vitrine Filmes

Texto publicado também em viapalermo.com