Carina

Último Filho
Sep 1, 2018 · 2 min read

Depois de passar pela roleta e finalmente conseguir encontrar um lugar na frente pra sentar, fiquei observando o movimento entre a entrada e o corredor do único ônibus que fazia o trajeto da Universidade Federal até a zona oeste da cidade. Uma menina se esgueira para o espaço localizado em frente ao cobrador, na minha frente. Percebo que ela agora interage com uma moça que entrou logo depois. A moça pergunta se a primeira se lembra dela. E esta nega, já justificando que não costuma se lembrar de quem conheceu recentemente, gesto confirmado pela segunda. A cena desperta minha curiosidade e começo a prestar atenção. Não demora muito, estamos conversando:

“Me chamo Luiz.”

“Eu sou Carina.”

“Muito prazer.”

“Você não tem cara de Luiz.”

Pronto. A partir daí tudo vai ficar muito esquisito.

“Por quê?”, pergunto já me arrependendo meio segundo depois.

“Você tem cara daqueles jagunços que matam a mando do fazendeiro.”

“Que fazendeiro?”

“O proprietário da fazenda.”

“Eu sei o que é um fazendeiro. Achei que você estivesse referindo-se a um fazendeiro específico.”

“Não. Qualquer um serve. O teu lance é ser jagunço mesmo.”

“Você costuma adivinhar muito a sina das pessoas?”

“Jurandir!”

“Como??”

“A sua cara.”

“Que que tem a minha cara?”

“A sua cara é de Jurandir.”

Quando penso em responder alguma coisa, a única que me vem à cabeça é a palavra “afff”, e Carina salta do canto onde tinha estado durante todo esse diálogo e corre para a porta de saída.

“Tchau, Jurandir!”

“Tá, mas é com ípsilon sem erre.”

Abro meu livro e me recosto na cadeira. Fico observando o movimento dos passageiros que entram atrasados e se aglomeram perto da roleta. O dia mal começou.

[Paranoá — DF: 2018].

    Último Filho

    Written by

    Incontestável. Toda história tem personagem e todo personagem tem história. Uma experiência de linguagem escrita. Nascimento e aventura.