Carina
Depois de passar pela roleta e finalmente conseguir encontrar um lugar na frente pra sentar, fiquei observando o movimento entre a entrada e o corredor do único ônibus que fazia o trajeto da Universidade Federal até a zona oeste da cidade. Uma menina se esgueira para o espaço localizado em frente ao cobrador, na minha frente. Percebo que ela agora interage com uma moça que entrou logo depois. A moça pergunta se a primeira se lembra dela. E esta nega, já justificando que não costuma se lembrar de quem conheceu recentemente, gesto confirmado pela segunda. A cena desperta minha curiosidade e começo a prestar atenção. Não demora muito, estamos conversando:
“Me chamo Luiz.”
“Eu sou Carina.”
“Muito prazer.”
“Você não tem cara de Luiz.”
Pronto. A partir daí tudo vai ficar muito esquisito.
“Por quê?”, pergunto já me arrependendo meio segundo depois.
“Você tem cara daqueles jagunços que matam a mando do fazendeiro.”
“Que fazendeiro?”
“O proprietário da fazenda.”
“Eu sei o que é um fazendeiro. Achei que você estivesse referindo-se a um fazendeiro específico.”
“Não. Qualquer um serve. O teu lance é ser jagunço mesmo.”
“Você costuma adivinhar muito a sina das pessoas?”
“Jurandir!”
“Como??”
“A sua cara.”
“Que que tem a minha cara?”
“A sua cara é de Jurandir.”
Quando penso em responder alguma coisa, a única que me vem à cabeça é a palavra “afff”, e Carina salta do canto onde tinha estado durante todo esse diálogo e corre para a porta de saída.
“Tchau, Jurandir!”
“Tá, mas é com ípsilon sem erre.”
Abro meu livro e me recosto na cadeira. Fico observando o movimento dos passageiros que entram atrasados e se aglomeram perto da roleta. O dia mal começou.
[Paranoá — DF: 2018].
