“O furo” ou “Pai contra mães”.

Último Filho
Sep 1, 2018 · 3 min read

Quarta-feira fui a Brasilinha com um amigo. Fomos visitar um chegado seu (a quem meu amigo vendeu plantas ornamentais). Um belíssimo xique-xique (pilosocereus polygonus) habitava solitário um dos cantos da piscina. Bonsais lindinhos demais adornavam uma mesa próxima à garagem. Falamos muito de trabalho, ferramentas, pesos e medidas. Esse amigo trabalha com perfuração, entre outras atividades envolvendo obra e plantação, e foi daí que nasceu uma história interessante (para meus alunos, pelo menos).

Ele precisava fazer uma instalação no banheiro da suíte, mas desconhecia o projeto hidráulico. Um registro instalado por outra pessoa estava no meio exato da parede, onde já havia uma pia, e o mais óbvio seria deduzir que o cano descia reto até o chão. Então ele deu um espaço de mais ou menos 5cm, ou quatro dedos, e fez o furo. Como a broca era uma de 6mm, não haveria impacto sobre o tijolo que envolvia o cano, o suposto cano. Acertou o prumo e puxou o gatilho da furadeira. Desencanto. O cano fazia uma curva improvável. Na verdade, era um desvio, “mas de quê?”, ele perguntava pro ar, na porta da churrascaria onde paramos pra lanchar.

Por algum motivo sei lá de qual natureza, o sujeito colocou o joelho no local falso, desses que são desesperados pela segurança de quem vem com a furadeira. E o pior de tudo é que meu amigo foi para longe da tragédia nesse furo, só pra encontrá-la no encanamento, um dos piores legados de se ter no próprio quarto. Inocência. Aí, eu parei pra me perguntar se o óbvio ainda merece algum respeito, e isso me lembrou a velha história da aranha, do gigante e do mosquito, tão repetida já. Lá vem.

O gigante precisava se banhar, mas os mosquitos lhe oprimiam nessa hora de vulnerabilidade. Por causa disso, ele mantinha aranhas no banheiro. Assim, resolvia dois problemas: o seu e o das aranhas, que cresciam e se reproduziam alimentadas pelos mosquitos. Quanto aos mosquitos, bom… Todos, aliás, todas. São todas fêmeas gestantes e necessitam do sangue para desenvolver suas larvas. Apenas as fêmeas picam a pele dos gigantes.

E o que aconteceu foi que o mosquito rodeava o gigante, próximo à queda d’água, e a aranha espreitava e toda se escondia, até do gigante. Este brigava no ar para apanhar o inseto grávido com as próprias mãos, pois a experiência lhe desenvolveu as habilidades de assalto aéreo. Num movimento infeliz e mal escolhido, o pernilongo saltou elétrico num mergulho rasante e recebeu o azar de encontrar os dedos do gigante, que traziam o que deve ter sido uma enorme tromba d’água do ponto de vista do voador. Só que, no momento da investida kamikaze, a aranha, que já tinha seus planos deliberados, mexia-se em cima da ponte de teia que atravessava o espaço às margens das cataratas, muito impulsionada pela fome e pela sua própria maternidade, já que encubava seus ovos mais acima, num ninho feito onde havia luz. O resultado foi o mosquito arremeter e escapar à mão do gigante, que derrubou a passarela da aranha, fazendo com que esta pobre coitada predadora despencasse para o ralo encharcado.

O gigante, desconsolado, tentou ajudá-la a subir, mas só conseguiu foi terminar de matar a bicha. O mosquito, no meio desse descompasso, foi se prender numa das teias acima, próximo aos ovos. Ficou lá, transtornado e infeliz, padecido do sacrifício vindouro: o holocausto.

Muito se enfureceu desse episódio o gigante, de modo que culpabilizou o parasita pelo insucesso e pela ruína de sua companheira de banhos e tocaias. Inspirou-se novamente e teve outra ideia: atirar este desinfeliz nos ovos, para que seja servido em memória da Dona Aranha e em proteção aos seus rebentos aracnídeos. Tentou jogar mais fios de teia sobre o mosquito e esse gesto o libertou. O gigante ficou só e os ovos nunca eclodiram.

A hora passou e eu não vi. Meu amigo pediu uma pinga e eu pedi a conta. Voltamos pra Brasília e eu lhe dei uma carona até o condomínio. Quando cheguei à minha casa não havia nenhum inseto. Tampouco havia aranhas. Dizem que quando as chuvas caírem os escorpiões é que serão os novos mosquitos.

Paranoá — DF, 2018.

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    Incontestável. Toda história tem personagem e todo personagem tem história. Uma experiência de linguagem escrita. Nascimento e aventura.