O opróbrio.

Último Filho
Sep 1, 2018 · 4 min read

Arranjaram uma garrafa, mas não era uma grande. Nem sei donde surgiu aquilo. E eu lá, né… “Ai, meu deus”. Tinha de fazer uma declaração de amor dançando na boquinha da garrafa.

E quem estava lá: Karu, Natascha, umas meninas que eu não conhecia, o pessoal do torneio e o professor. Tinha até gente filmando (Márcio, safado).

Não tinha jeito. Tinha que enfrentar aquilo, caramba. Enfrentar o inferno. Enfrentar a prenda. A prenda era essa. E tinha que ser pagada. Eu fiquei em segundo lugar. Quem ficasse em terceiro, tudo bem, e o primeiro era o campeão, né, de qualquer forma, mas quem ficasse em segundo teria uma prenda pra pagar.

O professor Daniel contava a história de que no ano anterior, ou no semestre anterior, o jogador teve de cantar “Hakuna Matata” lá da plataforma superior do ginásio.

Ai… caramba… Lá vou eu pra boquinha da garrafa. Por que eu fiquei em segundo lugar?

Quem me derrotou foi o Gabriel. Ele é um aluno de Educação Física. Não é nem um participante da nossa turma de esgrima. Na verdade, ele é um professor de esgrima! E veio se meter em participar do torneio. E foi o único que me venceu (na luta inicial, na primeira rodada, e na final). Venci todo mundo, menos ele. O primeiro encontro: ele ganhou, e com estocadas violentas. Eu não conseguia esquivar. Fiquei meio travado e com medo. Não sei. Parecia uma muralha que avançava. Me pegou na marcha. Ele veio com calma, lento, silencioso. Só batendo o pé. Eu, ansioso, pulava pra lá e pra cá, acabava caindo nas estocadas dele, que eram retas. Lutava na modalidade muito parecida com espada, e eu era florete. Mas tudo bem. Eu venci todo mundo, menos ele.

Alguns faltaram ao torneio e se desclassificaram automaticamente. Dessa maneira, tive ainda umas vitórias bem safadas, pois me safei. Vitórias por desistências de colegas que, estando presentes, teriam dado dificuldade para minha colocação, fora de toda dúvida. Vergonha minha, mas não foi minha apenas, nem era eu sozinho nesse fardo da safadeza.

Todo mundo venceu as lutas citadas, as vergonhosas, desse jeito, incluindo o Gabriel, que venceu tudo mundo. Otávio, que é violento e bruto, não foi, e eu tinha grandes chances de vencer, mas teria de bater de frente com ele, que não era rápido, mas era forte. Aliás, é forte e meio doido. E por que entrei nessa esgrima? Deixa eu responder.

Minha ex-namorada, Natascha, que estava lá agora, na condição de apenas plateia para minha vergonha pública, e para acabar rindo de mim, por último, enfim: ela sugeriu que eu entrasse em alguma atividade física, que eu estava barrigudo, sedentário, com pouco fôlego e indisposto. Eu aceitei a sugestão porque não queria fazer vexame. Queria fazer boxe; não tinha. Tinha esgrima. Entrei. Fui aprendendo. Na primeira aula teórica, o professor já ensinou uns movimentos lá, com o sabre. Depois, só ensinamentos práticos.

“Defesa é assim e assado.”

“Movimento tal, tal e tal.”

E no fim da aula: uma luta. Sempre, todo fim de aula, uma luta. Maravilhosa série de aulas. E lutas! Conhecendo pessoas, batendo papo no ponto de ônibus. Fiz amizade com o professor Daniel, um sujeito muito engraçado e gente boníssima. Adora História, toca violão e é praticamente invencível no Mario Kart 64 (jogava com o Yoshi).

Afinal, chega de fugir da prenda. Declaração de amor na boquinha da garrafa. Essa esgrima… ai, ai… Ai… por que entrei? Ai... por que saí? E como saí…

Resoluto, corajoso e audaz peguei a garrafa e coloquei no chão, olhando pra ela como se tragasse seu conteúdo a fim de ganhar coragem, mas só no olhar mesmo. E fui, enfrentei ela. Botei a mão no joelho e fiz o que tinha que fazer. Dum modo tosco e envergonhado, mas fiz. Durante a “declaração”, falei alto, que era pra esconder que eu mesmo queria me esconder no silêncio. E falei: “Karu”, e ela me mandando, “Rebola, rebola!” Tentei encontrar palavras, e ela mandava rebolar.

Gritei pro professor Daniel: “Conta aí!” E o Márcio começou, bem devagarinho, “uuuuummmm… dooiisss…”

A prenda duraria um minuto. Virei para a plateia, que até esse momento se manteve em silêncio, um silêncio obviamente constrangedor, e disse:

“Meninas que eu não conheço e que estão aqui me vendo pagar mico, sentadas aí nesse tatame sujo…”

E o Márcio contando. Cada segundo contado pelo Márcio, pra mim, era o cabelo crescendo ou o gelo derretendo. É um troço que não tinha nem início, imagina o fim?

Daí a uns momentos breves de angústia solitária, Daniel declarou a prova terminada e a tarefa cumprida. Todo mundo rindo, e eu também. Tudo acabou na bagunça. A esgrima é uma prática maravilhosa. Foi um período muito bom da minha vida. Minha juventude na universidade. Aproveitei, paguei mico, passei por provas e mostrei o meu valor em cada situação. Também fui eleito a melhor defesa do torneio.

[Paranoá — DF: 2018].

    Último Filho

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    Incontestável. Toda história tem personagem e todo personagem tem história. Uma experiência de linguagem escrita. Nascimento e aventura.