Desliga a campainha
Meu amigo, você precisa ouvir isso. Anda fingindo que está acordado, que tem tudo sob controle mas sejamos francos: você não está bem. Basta observar com um pouco de atenção para perceber. É fácil notar o olhar opaco, intermitente, encarando lugar nenhum. Os olhos não se movem nem quando sorri. Quando sorri, o faz por conveniência, não tem vida. Muitas vezes ri fora de hora ou de forma exagerada, pois não estava de fato na conversa.
Eu sei que existe uma república inteira de demônios travando batalhas tão inúteis quanto infindáveis aí dentro. Sei dos reforços químicos que você andou buscando e dos bons efeitos que surtiram. No entanto, também sei de uma batalha em particular em que você está perdendo feio, apanhando calado…
Meu amigo, você passou um bom tempo arrumando a casa, reconstruindo detalhes que jamais soube que existiam. Pintou as paredes, reformou as janelas, pendurou quadros bonitos, algumas fotografias antigas na estante. Tirou a poeira dos velhos livros, trouxe novos, tudo ao som dos LPs que tanto gosta. Conferiu os alicerces, cuidou do telhado, deu atenção à fachada. Estendeu o tapete de boas vindas e instalou a campainha.
Acontece, meu amigo, que você esqueceu o olho mágico. E após tanto esforço, tanto esmero na reforma de uma casa que já esteve em ruínas, você atendeu a campainha para a visita errada. Sem hesitar, foi praticamente entregando as chaves para quem não tem por hábito fixar residência. Preparou a mesa, escolheu as músicas, deixou-a à vontade.
Ela tocou a campainha.
Meu amigo, quando você abriu a porta, ela olhou cuidadosamente cada canto da sua casa, ali mesmo, sem dar um passo sequer para dentro. Esboçou um sorriso, elogiou os quadros, identificou alguns livros na estante, quis saber algo sobre uma ou outra fotografia, disse que aquele era um lugar diferente, conversa fluindo… Cuspiu o chiclete, virou as costas e foi embora. Sim, meu amigo, a comida estragou e o vinho você o entornou sozinho e o vomitou de madrugada no sofá, ao acordar assustado, pensando ter ouvido a campainha.
Ah, meu amigo, eu sei que quando a campainha toca você corre para atender. Ingênuo, imagina que ela voltou, dessa vez para entrar, trazendo vinho ou um fast food qualquer, querendo de fato conhecer aquele lugar que havia dito ser diferente. Mas quando você abre a porta, ela está longe, entrando no próximo coletivo, sorrindo por cima do ombro como quem diz: “Sabia que você atenderia.”
Meu amigo, desliga essa campainha!
