Fotos e molduras

Já acho graça nessa história de tristeza definitiva. É curioso. Ser triste faz brotar identificação das mais improváveis companhias, que por acaso estejam tristes momentaneamente. Duas, três, dez mensagens trocadas. “Isso!”, “Exatamente!”, “Você me entende!”. Algumas sugestões de filmes pouco indicados a suicidas. Músicas e livros idem.
Trata-se de toda identificação pela qual um sujeito taciturno anseia sentir para enfim deixar de ser… triste. Mas você é, ela está. Ela melhora, levanta, sacode a poeira, as afinidades, o clima. Bem assim. Uma moldura para inúmeras fotos freneticamente trocadas. Inicialmente, quando emolduradas, todas se encaixam perfeitamente. Algumas ficam mais tempo, deixam resíduos no fundo da moldura, manchas no vidro. Outras são arrancadas, rasgadas, até queimadas. Nenhuma passa despercebida. Uma vez arrancadas, não é comum fotos voltarem para a mesma moldura…
De fato, essa persona rehab-emocional-ambulante talvez seja a tal missão da qual o incumbiram quando veio para este plano, como dizem. E há um padrão. São tão corriqueiros e semelhantes os movimentos que é perfeitamente possível detectar quando será o pico das trocas de mensagens e, em seguida, quando o fio de afinidades começará a ruir.
Sobrou aceitar que, com raríssimas exceções, você vai conhecer pessoas já sabendo que é inevitavelmente efêmero e isso não significará gostar menos delas; não o salvará do dia a dia vazio tal uma moldura sem foto, sem vidro, sem fundo.
Hoje moldura. Sente-se confortável ao lembrar quando foi foto de alguém?
