Grito mudo

Na adolescência, com toda a urgência e ingenuidade características, costumava escrever que “se dormimos para descansar o corpo, por que não é permitido morrer de vez em quando para dar descanso a alma?” — algo assim. Embora fruto de uma fase reconhecidamente cheia de exageros, esse raciocínio não é de todo ridículo. Imagine poder tirar férias dos vivos sabendo que vai voltar. Um reset. São semanas, meses medonhos. Meia dúzia de foras, seguidas brigas com os pais, amigos se distanciando, subemprego lhe sugando, mastigando e cuspindo todos os dias. No fim do dia, exausto, se derrama na cama e apaga por 5, 6 horas para dar um mínimo de compensação física para que o corpo aguente a continuação do ciclo no dia seguinte. Mas e a alma? Se nem mesmo o corpo se restabelece por completo com tão pouco tempo inativo, como medicar a alma? Religião? Psicanálise? Drogas? Todas alternativas já banalizadas, de efeitos relativos, dependentes de muitas outras variáveis e carregadas de efeitos colaterais indesejáveis. Imagine poder morrer por dias, semanas talvez; deixar a alma quieta, adormecida, cicatrizando; ressuscitar com os mesmos problemas ainda esperando mas poder enfrentá-los sob a perspectiva de um ser humano zerado, sem os hematomas embaixo de hematomas que a vida lhe causou desde o fatídico dia em que você se tornou funcional.
Obviamente isso é exercício de pura ficção. Não nos resta outra alternativa a não ser encarar o que está aí. A cada segundo, viver fica mais intenso, difícil, espinhoso. É um eterno arranhar de unhas na parede. Um sopro que não permite uma tomada de fôlego na hora errada, do jeito errado. Somos condenados a ler e interpretar tudo e continuar escrevendo simultaneamente. Sem pausa. Sem borracha. Fatalmente saímos da linha, deixamos muito escapar, ainda que parar de escrever não seja considerado uma opção. Porém, nem todos suportam essa espiral frenética. De fato, o número de desistentes só aumenta. Com maior frequência, parar de escrever tem se convertido em um caminho possível.
Infelizmente, não é sempre possível detectar quem está derrapando. E, na verdade, ninguém tem a obrigação de perceber a derrapada alheia. É no mínimo injusto depositar essa responsabilidade no colo de qualquer pessoa, independente da proximidade. Respeito, todavia, é imperativo! Cabe a qualquer ser dotado de intelecto não diminuir e estereotipar aquele fulano supostamente triste, recorrendo a esse fato para descrevê-lo. Não é engraçado e ele certamente não vai lhe confrontar porque, para ele, seria inútil, não seria ouvido.
Falando como um desses fulanos, desejando com todas as forças que aquela piração da adolescência dita lá em cima fosse real, se pudesse descrever como é escrever o tempo todo fora da linha, seria algo como puxar muito ar, encher os pulmões, ter certeza do grito e, no entanto, soltar um pavoroso, imenso e inofensivo silêncio. E é uma ação cíclica, ininterrupta, que exaure mais e mais. O tal do fôlego tomado na hora errada, do jeito errado. Várias vezes. Corpo cansado, alma ofegante.
É lindo e verdadeiro sentir compaixão e empatia por alguém que não conhecemos, que tenha nos influenciado de alguma forma (ouvi Chris Cornell? Chester Bennington?). No entanto, sejamos razoáveis, quando foi a última vez que rimos, sem qualquer remorso, do colega por ele ouvir/ler coisas que entendemos serem tristes?
De novo: ninguém tem obrigação de perceber a batalha que o outro esteja eventualmente perdendo; ninguém, igualmente, precisa ser o pé na cabeça do fulano toda vez que ele tenta emergir do mar de lama. Na dúvida, não faça a brincadeira que está na ponta da sua língua. Se não houver sequer a dúvida, as notícias sobre sua pessoa não são boas…
